Uma das coisas fascinantes nas mudanças é ver nossas vidas entrando e saindo das caixas: livros, discos, fotos, objetos, pedaços da nossa trajetória. Nas fotos divirto-me com meus cortes de cabelo, observo que já fui mais magra e rio das cenas: eu e meu filho Fernão, ainda pequeno, em cima de uma árvore para ver os búfalos que viviam numa fazenda, de longe. E, neste caso, quanto mais longe melhor. Ainda me lembro dos bichões flutuando num açude, tomando seu banho diário e, naquele momento, os búfalos pareciam leves, quase plumas, bailarinos de uma exótica coreografia aquática, em que eles fingem que afundam e emergem, com as narinas querendo aspirar todo o oxigênio do mundo.
Fotografias trazem as lembranças que, mesmo estáticas, nos fazem recordar os movimentos. Um dia de vento, a curva da estrada, o sopro nas velas do quinto aniversário. Cada imagem é um fotograma da vida, fotogramas que cantam e batem palmas.
Nas mudanças, às vezes um poema anotado às pressas cai de um livro de História ou de um livro de poemas cai uma foto histórica. Sempre enfiei coisas dentro dos livros para não perdê-las e, assim, fui criando enredos dentro dos enredos. Textos anotados em guardanapos, coisas que outro leitor deixou num livro comprado em sebo, como o cardápio de um navio, um marcador de páginas, um rabisco involuntário ou a frase: ''Hoje começa o outono.''
Quando a gente se muda, perde circunstancialmente as referências. Demora até que as novas paredes sejam impregnadas com a nossa energia. Na transição, aos poucos, imprimimos ao espaço um ''sopro de vida'', um quadro aqui, uma cor ali. E o lugar vai se chamando ''casa.'' Sempre gostei de criar casas, porque as casas não só se constroem, se criam. De nada adianta ter teto e parede se o seu gosto não estiver em cada pedaço, quando as lâmpadas se acendem e se apagam. De nada adiantam os móveis se você não souber criar um canto, um quarto que tem sua marca registrada: incensos e livros, um tapete puído que te acompanha há anos, à espera dos gatos com quem você compartilha a existência.
Dizem que os gatos gostam mesmo é das casas, mas insisto que eles gostam dos donos. Para onde os levamos, eles se adaptam, no começo cheiram tudo e, aos poucos, vão passando ao espaço seu próprio cheiro, roçando em paredes, como se fizessem carícias no lugar. Como os seres humanos, precisam de aconchego e de perceber que as plantas continuam as mesmas, as almofadas ainda têm a marca das suas patas, o sofá desfiado continua a ''lixar'' suas unhas e a mesma vasilha de água, mais do que um bebedouro, é seu oásis na cozinha. E na cozinha, nada como o barulho das panelas sendo destampadas no almoço, felicidade doméstica para gente e bichos.
Mas o que movimenta de fato minha Rosa dos Ventos é o trabalho, nele vou redescobrindo as referências do meu ritmo interno, da minha pulsação, o redirecionamento do meu Norte e do meu Sul. Minha Rosa dos Ventos se move em pensamentos e textos, onde me reencontro. Criar um texto é como escrever uma carta. Ficamos ali, em silêncio, conversando intimamente, ao mesmo tempo em que falamos com o amigo distante, de quem nos aproximamos pelas palavras. Não à toa, o poeta Bertolt Brecht escreveu: ''Elementos, os fogos/ Divindades, o Logos.'' Porque divino é o Verbo que tudo aproxima, reinventando a geografia, eliminando distâncias para levar as novidades, como um carteiro invisível, que toca a campainha que se...lê.

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