CELIA MUSILLI - Uma arte para mentes livres
Estou lendo a biografia monumental que Peter Gay escreveu sobre Freud. Mais de 700 páginas em que o ''Pai da Psicanálise'' é virado pelo avesso, numa pesquisa de fôlego sobre a sua vida, feita com o respeito de quem sabe escrever sobre a intimidade dos outros. A tarefa dos biógrafos é sempre difícil. Como ser sincero sem resvalar na indiscrição? Como ser verdadeiro sem omitir nem negar aspectos que poderiam depor contra as personalidades às vezes tão surpreendentes dos biografados? Há um misto de respeito e autenticidade no livro de Peter Gay chamado ''Freud: Uma Vida Para Nosso Tempo''.
Ele elucida algumas teorias de Freud a partir da perspectiva das próprias experiências do biografado: um judeu nascido na vila morávia de Freiberg, em 1856, quando a discriminação racial se desenhava fortemente num movimento que eclodiria mais tarde no nazismo. Freud se ressentia do tratamento dado ao seu pai, chamado de judeu de maneira ofensiva e que, possuidor de um caráter brando, não reagia às ofensas. Esta docilidade afetava Freud, do mesmo modo que a beleza de sua mãe o fazia sentir-se atraído por ela oferecendo, vejam só, o fio que, mais tarde, o faria tecer a teoria do Complexo de Édipo.
Sempre achei que ninguém pode radiografar com tanta desenvoltura os meandros da mente e do inconsciente humano sem passar, por si mesmo, pelas experiências que nos fazem refletir em profundidade sobre estes mesmos problemas. O que admiro em Freud é sua coragem em revelar aquilo que o expõe aos olhos do mundo e sua ousadia ao tocar em assuntos encarados, à sua época, como verdadeiros tabus. Foi assim em relação à descoberta da sexualidade infantil, foi ele quem mostrou que a libido, como força vital, é condição latente nos seres humanos em tenra idade. A descoberta colocava por terra a ideia de que crianças são anjos assexuados, pois não são. Mas àquela altura, num ambiente formal, moralista e pudico, não foi fácil discorrer sobre as características humanas, demasiadamente humanas, que um século depois ainda provocam mal-estar nos meios declarados ''familiares''. Quando se fala em sexualidade infantil, os caros leitores ainda sentem algum desconforto, não?
Da mesma forma, suas teorias sobre a transferência do afeto, tão cara ao entendimento da Psicanálise, se deu a partir do relacionamento com a paciente Anna O., com quem ele teve que lidar não só com a transferência como com a contra-transferência, esboçada no seu envolvimento com ela.
Reitero minha confiança nas teorias freudianas a cada vez que observo a carga de conhecimento íntimo que ele tão bem revelou acerca de suas próprias descobertas e de seus próprios problemas. Os estudiosos, estes deuses que às vezes se colocam no Olimpo, nem sempre estão dispostos a revelar o que pode parecer estranho aos olhos dos outros. De certa forma, os intelectuais querem ser modelos, obedecendo a padrões que não lhes embace a fama. No caso de Freud, o conhecimento parecia se colocar acima das luzes da própria imagem e bem longe dos holofotes que costumam iluminar os gênios para seu próprio deleite. Como disse, o que admiro em primeiro lugar é sua coragem, ao tocar em feridas que, uma vez expostas, se converteriam na cura de milhares de pessoas. Isto me faz pensar que o conhecimento é, antes de tudo, uma ousadia para poucos ou uma arte para mentes livres.
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