CÉLIA MUSILLI - Um visitante na cozinha
Quando ainda penso que é noite, eles vêm anunciar o dia. Vêm em bandos em cima do telhado, pardais, tico-ticos, sabiás. Uma floresta de cantos em meio às casas, desafiando a cidade com sua resistência de pássaros.
Uns têm cantos coloridos, outros apenas se repetem. Mas, no fim, temos ali uma sinfonia de curta duração. Depois desaparecem, para cantar isoladamente durante todo o dia. Uns piam aqui, outros ali. E, ultimamente, como tenho na cozinha uma tigela com a ração dos gatos, deram de bicar e ''sapatear'' sobre a comida.
Espalham tudo, como bailarinos inquietos, tão rápidos que os gatos só os veem como sombras, quando já cruzaram a janela. Meu filho até disse outro dia: ''Que é isso, mãe? Este passarinho que aparece e some como um ninja?'' Um ninja emplumado, é verdade, e sem capuz. Conta com as peninhas frágeis, as asas de uma rapidez que combina com sua precisão, a astúcia de entrar e sair por um vão, como se calculasse milimetricamente o espaço. Como pode? Eu, nem com óculos de grau e bússola a me guiar um voo, sairia daquele jeito da cozinha. Antes, trombaria com armários, me perderia entre a pia e a parede, ficaria à disposição do gato, mas eles desdenham o perigo, numa ligeireza que o velho bichano nem sonha.
Cada animal tem sua habilidade. O cachorro fareja e, numa lembrança remota de caçador, não poupa outros animais das patas e depois dos dentes. Os gatos, ah! os gatos já foram melhores, antes de serem acostumados com rações de lata, nacos de carne, água fresca e comida tão farta que movem os olhos como caleidoscópios como se perguntassem: ''Caçar pra quê?'' Mas são tão bonitos que parecem com estas pessoas a quem amamos, sem que precisem fazer nada.
Gatos para mim sempre serão um símbolo da liberdade afetiva, da sedução inesperada. Só nos procuram quando não estamos nem aí com eles, então vêm, pulando repentinamente nos colos, para lembrar que somos seus donos.
Já os pássaros, não consigo classificar. Há quem tente domesticá-los, prendendo-os em gaiolas, o que considero uma crueldade monstruosa. Onde já se viu prender quem tem asas? Não se deve prender os pássaros nem os anjos. Antes, deixo-os ficar assim, chamando o dia no telhado, para depois entrar e sair como os mais rápidos dos visitantes. Para onde vão não sei. Há um condomínio de pássaros em cada árvore, uma profusão de ninhos e de filhotes. Prefiro vê-los como a sombra rápida, a ligeireza do vento, a liberdade que desconhece paredes.
Só sei que meu dia seria menos encantador sem os pássaros. Personagens das manhãs que desaparecem à noite, embora eu os adivinhe dormindo e sonhando, quem sabe, com um filme de aventuras, onde todos são ninjas, num mundo em que não existem gaiolas.
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