Num de seus contos, Jorge Luis Borges fala de um planeta mítico chamado Tlon, onde há uma escola filosófica que declara: ''todo tempo já transcorreu e nossa vida é apenas a recordação, ou o reflexo crepuscular, sem dúvida, falseado e mutilado, de um processo irrecuperável''. Por esta ótica, vivemos então um reflexo do que já fomos. Faz sentido, se reunirmos todas as nossas experiências como aquilo que nos marca de forma indelével para o futuro. Para me livrar disso, já quis viver como Benjamin Button, aquele cara que não envelhece no filme, mas regride à mais tenra infância. Seria minha esperança de ter no futuro uma vida novinha em folha. Mas vivemos aqui como no planeta Tlon, nem assim tão mítico, porque as recordações nos assombram em noites de insônia, quando conto o tempo para frente e para trás, até no máximo dez dedos. E ainda assim, às vezes, entristeço. Imaginem então o quanto deve doer ficar pensando na eternidade que nem conseguimos contar. Aliás, não acredito na eternidade, assim como ando desconfiada de que a morte não existe.
Antes que alguém me tome por maluca e fique pensando no que me leva a ter pensamentos tão complicados, esclareço que este papo da não existência da morte surgiu quando falava com alguém que me mostrou por A mais B que só podemos ter certeza daquilo que conhecemos, daquilo que vivenciamos. Então, quem de nós aqui já conheceu a morte? Quem esteve no lugar em que supomos que ela nos acolha, como um lugar fora da consciência? Nosso cérebro registra experiências e somos movidos por elas. Nossa memória articula passado e presente, mas pode apenas projetar o futuro, então o futuro, como esta concepção de morte, esta concepção de morte como um estado por vir, a ser conhecido, não existe, é uma projeção, embora as religiões nos acenem com a ''vida eterna''.
Para mim, a vida eterna seria algo muito chato, um estágio não sujeito a mudanças porque afinal, dura para sempre. Só estamos vivos enquanto sujeitos a mudanças, este deslocamento de circunstâncias no tempo que nos faz estar aqui hoje, ali amanhã, nisso consiste a graça e o sabor da existência. Uma vez congelados num tempo eterno, estaríamos sem dúvida num local de morte, ideia soturna, do estágio em que perdemos os movimentos e não há mais mudanças, o que me leva a crer que isso não existe. Alguém pode argumentar que muitas coisas que não vivenciamos, existem. Assim como as que não vemos, como aquele velho exemplo da linfa que corre invisível em nossos corpos, sem ser vermelha como o sangue que enxergamos bem.
Não sou cética a ponto de tender à ignorância de achar que só aquilo que apalpo e vejo, existe. Mas no caso da morte, penso no quanto nos dedicamos, através das civilizações, a imaginar sobre ela. Da Pré-História ao Egito Antigo - onde a ideia de um barqueiro a nos transportar para a ''mansão dos mortos'' tomou o vulto de um assombroso teatral - da Era Clássica à Contemporânea, a morte mereceu pompa e circunstância e cresceu assim nossa crença nesta Senhora que não negocia, simplesmente nos leva, mas ninguém sabe para onde.
Quando me dou conta de toda esta dramaticidade, tendo a desconfiar que ela só existe para o medo e que talvez a morte, bem mais simples, seja apenas o ato de deixar de existir aqui para não existir mais em lugar nenhum. Os enredos ficam por conta da nossa imaginação e que cada um o pinte como quiser porque também não desejo ser estraga-prazeres de quem cultua o que existe além da vida. Apenas confesso, que o que vejo e sinto nesta vida, para mim já é demais.

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