Senhores e senhoras,
Bem sei que os tempos não estão para manifestos. Foi-se a época em que dadaístas, surrealistas, cubistas e modernistas lutavam por causas criativas. Hoje, no máximo, nos manifestamos contra a corrupção ou nos lançamos em campanhas contra a (des) construção de Belo Monte, tendo que ouvir as seguintes perguntas: ''Mas por que temos que preservar florestas?'' Ou mesmo: ''Quem está preocupado com oxigênio?'' A turma pensa que a natureza é inesgotável, como a nossa paciência.
Mas vamos a outros fatos. E o fato da semana é que me deparei com a Burocracia, uma senhora que cheira à naftalina e exibe longevidade irritante. Esta senhora põe nossos nervos à flor da pele e, quando aparece, o risco é de dias pesados, horas ingratas, filas insanas, noites mal dormidas e, até mesmo, um infarto.
Esta semana estive na fila de espera desta senhora. Ao tentar fazer meu Curriculum Lattes - nome em homenagem a um físico maravilhoso que nem merecia destino tedioso -, me dei conta de que somos números, meros números, cruzados com uma lista de atividades que incluem cursos, simpósios, palestras, congressos, enfim, registros que comprovem que aprendemos o bastante.
O problema é quando o Sr. Currículum começa a cruzar seus dados com a Sra. Receita Federal, um ''casamento'' que nem sempre dá certo. Confesso que cheguei a pensar numa união similar à de um cão basset com uma rotweiller, um mico-leão com uma iguana, FHC com Dilma Roussef. Decididamente, não pode dar certo. Puxam dados daqui, dados dali e, às vezes, acontece um curto-circuito porque uma palavra não bate. Assim, começou meu périplo.
Me enviaram à Receita Federal para puxar e alterar meu cadastro. Pego uma senha, quando chega minha vez me pedem para ir ao banco pagar uma taxa. Uma taxa de pouco mais de cinco reais que me consome mais 20 de táxi. Antes, pego outra senha, com hora marcada, e lá vou eu com o coração aos pulos.
Passo pela porta-eletrônica para comprovar que não escondo armas de fogo, entro como filha de Jó na fila de espera. Chega minha vez, mas a atendente da mesa me informa que a taxa se paga no caixa. Outra fila. Vou e volto, mas a funcionária está ocupada com outro cliente, recorro a um funcionário desocupado que me olha com tédio e me informa que o assunto é com quem me atendeu. Mentira, só fui salva de mais uma espera porque outra funcionária me atende com boa vontade e, naquele instante, dela é o reino dos céus.
Finalmente, com um recibo e dois formulários, volto à casa de Dona Receita. Já com certeza, muita certeza, que abençoados são os ''vagabundos'', os que não trabalham, não pagam taxas, não têm conta em banco, não têm ''receita'' para viver nem tutores de sua própria vida. Mas fazer o que, se estou nos domínios do funcionalismo entediado, dos papéis carimbados, dos recibos exigidos, do dia interrompido pela senhora Burocracia?
Entre dois telefonemas e o trajeto de táxi, volto à Receita para fazer valer a segunda senha. Quando o número 80 é mostrado no painel eletrônico, meus batimentos cardíacos estão a 140. Mas cheguei lá, como uma feliz ganhadora da Telesena, para falar com mais um funcionário público e abro um sorriso. Ele abre o cadastro como quem tem a chave da minha vida. Não quer me informar de pronto o erro que não deixa os dados da Receita cruzarem com os do CNPq. Penso no casamento impossível de FHC com Dilma Russef, sou vítima desta união e preferia ser órfã.
Para informar o erro,o homem me pede RG, CPF, título de eleitora e quando descobre que não levei certidão de casamento nem do primeiro divórcio, me olha como quem diz: ''Te peguei!'' Quase imploro para saber o erro. Explico que só preciso entregar um relatório com dados corretos. Sadicamente ele concorda em revelar parte do meu cadastro, mas ''só um pouquinho'', e diz que para informações completas precisa de toda documentação. Então descubro que Dona Receita registrou errado o nome da minha mãe. Isso mesmo, da mãe! Que se chamava Anna, com dois ''enes'' na ortografia antiga, Ana que agora se escreve com um ''ene'' só. E nisso consiste todo meu drama: uma consoante a mais num nome próprio e por isso tenho que enfrentar toda burocracia para provar que... existo e que minha documentação não é um blefe.
Com a informação, consigo o que preciso. Decido que não vou voltar à casa da Dona Receita com certidão de divórcio e casamento. Por ora, vou alterar meus dados em outra instância, é simples.
Antes de sair, observo os domínios do tédio. Quanta tristeza e desistência no olhar de quem passa o dia atrás dos computadores, verde como nota de dólar, embora receba em reais. Querem saber? Dona Burocracia é uma tutora ingrata para todos, seus dependentes e funcionários que amargam a rotina. Estão todos tristes, entregues a tarefas que matam a alegria e ninguém merece esta morte em vida. Saio imaginando que só funcionários sádicos se divertem, talvez no meio da noite despertem para inventar engrenagens para Dona Burocracia. Seu sonho? Mais carimbos, mais papéis, mais comprovantes, mais recibos que nos façam perder um dia de sol em ambientes sombrios. Se viver é difícil, provar a existência tem sido quase impossível. Que Deus proteja os aventureiros e os vagabundos, último manifesto de um mundo criativo.

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