Chegou o dia de votar. Depois de passar um bom tempo vendo a cara de honestos e desonestos com ares piedosos ou arrependidos, depois de ver negarem tudo o que fazem de errado e tentarem enaltecer o certo que nunca atingem com a mesma propriedade das trapalhadas, resta a nós, eleitores, rir um pouco do desfile de híbridos que põe os candidatos mais diferentes no mesmo saco ou sigla.
Com a junção de zebras e macacos, hienas e pavões, gatos e raposas, o produto são estes partidos que parecem saídos de uma história de Mary Shelley, a autora de Frankenstein. Neste cenário, fica difícil enxergar com segurança o que compõe as siglas. Na falta de um olhar seguro, tateamos no escuro com a esperança de que o dedo que aperta a tecla, neste domingo, não se transforme amanhã num gatilho contra nossos próprios direitos. Para arriscar, quanto mais informados melhor, garantias nunca teremos, eleição não é uma apólice de seguros.
Todo cuidado é pouco, precisamos fazer um exame sincero nesta manhã e eleger prioridades. Um bom exercício talvez seja pensar mais no coletivo do que no individual, perceber que uma estrada ou uma ponte são objetivos mais justos do que a possibilidade de empregar o filho num cargo de confiança ou conseguir o aval para o financiamento da motocicleta. Pedir favores é nosso pequeno modo de corromper e ser corrompido. Porque não apenas os políticos são corruptos, os eleitores muitas vezes também são.
No cenário híbrido da política, a coerência também é artigo de luxo. Uma charge que vi esta semana representa o universo das mentiras ideológicas que sustentam a ilusão da política: um seguidor de Che Guevara enaltece seu tênis Nike, uma feminista pede para que lhe apertem os botões dos seios, uma pessoa votando nua cria a ilusão de liberdade. Nem sempre as bandeiras correspondem à realidade, a melhor propaganda de um candidato é sua trajetória. Quem nunca se preocupou com floresta, não se transforma numa ambientalista do dia para noite. Quem nunca foi exemplo de ética não pode desfraldar bandeira anticorrupção como se isso fosse a sua grande marca.
Mas hoje devemos consagrar o dia ao bom humor, votar e torcer para que as eleições nos redimam daquele 7 X 1 na Copa do Mundo naquilo que realmente interessa: educação, saúde, transporte público de boa qualidade. Não é preciso repetir a lista de nossas necessidades, aliás, temo que a repetição crie um déficit de atenção pelo excesso. Como se esse imenso pacote não representasse mais do que um "embrulhinho" que os candidatos jogam aos nossos pés como uma bola a ser chutada.
A saturação das políticas, a saturação dos discursos é inimiga das práticas, falar demais tira a concentração de quem realmente trabalha. De falácias estamos cansados, então o voto deve ser um ato de concentração naquilo que é essencial: a ação política. Não se prenda ao discurso, mas às realizações de seu candidato. Ele sustenta o que fala? Ele escreve história ou apenas fábulas?
No mais, que as diferenças sejam contempladas num cenário tão diverso quanto o Brasil. Que as maiorias não suplantem as minorias e que as minorias não se transformem também no umbigo do mundo. A troca de interesses exclusivos não faz bem a um organismo que precisa funcionar integralmente. O pensamento holístico beneficia a política. A inclusão de várias propostas ainda é um modo eficiente de se praticar democracia, um coro em uníssono soa monótono. Que a diversidade faça do Brasil um mapa em que cada um se reconheça. E por favor, não apertem botões apenas como quem aperta o gatilho para matar o inimigo. No futebol como na política não há jogo sem adversário. Não se constrói com rancor. Sorria, isso é apenas a dialética.

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