Em 2008 entrevistei Eugenio Barba, italiano radicado na Dinamarca, diretor do lendário Odin Teatret, que apresentou no FILO - Festival Internacional de Londrina - o espetáculo Andersen’s Dream, baseado nos diários do escritor Hans Christian Andersen (1805 - 1875). Ele abordava um sonho estranho, no qual Andersen era convidado por um rei a viajar em seu navio. Mas quando chega ao porto, o navio já havia partido e, chamado para viajar em outro barco, ele acaba aprisionado, passando a fazer parte de uma carga de escravos.
Barba falou que a escravidão traz sempre uma dualidade: "de um lado a infâmia, de outro a vitalidade que uma cultura, incorporada a outra, sempre provoca." Pensamento que nos remete ao transbordamento que surge da mistura de raças, ainda que de maneira trágica. Lembrei-me disso por causa do episódio recente da Aldeia Maracanã, no Rio, onde as mentes colonizadas expulsaram de novo os índios. Pergunto: quantas vezes um povo é expulso da sua própria terra? A julgar pelo nosso exemplo, infinitamente, como agora quando os índios são massacrados outra vez, enquanto os governos enaltecem a Copa do Mundo que seria "de todas as nações."
Barba disse também que, ao pesquisar a África, percebeu que "por onde passaram os escravos negros, formou-se sempre uma grande cultura, com estímulos criativos poderosos."
Lembro-me que ele incorporou esta vitalidade ao espetáculo dedicado a Andersen, com elenco de 14 atores, 13 veteranos do Odin e um brasileiro: Augusto Omulú, baiano de Salvador, que hoje vive entre a Itália e a Dinamarca. Sua presença no palco tornava aquela apresentação mais emblemática, com atores falando vários idiomas e uma forte influência afro, com incursões pelo candomblé.
Esta vitalidade bem que podia ser enaltecida no Brasil. Mas, pelo visto, aqui tem gente que sente vergonha de suas origens, empurrando a cultura indígena para baixo do tapete onde se enxergam grandes furos, senão grandes feridas. A compreensão que os intelectuais têm da cultura é sempre diferente da que tem o poder arrogante, dos governos inaptos, dos Cabrais que não se cansam de tripudiar sobre a raça a ser dominada. São muitos fortes os índios ao enfrentarem a expulsão até hoje.
Barba, conhecido como um pesquisador do Teatro Antropológico, esteve em Londrina três vezes: em 1991, quando levou ao FILO uma mostra de espetáculos, em 1994, quando fez no Brasil a única sessão da ISTA – Escola Internacional de Teatro Antropológico - realizada na América Latina e em 2008, quando o entrevistei. Lembrei-me também desta entrevista recentemente porque Barba disse, na ocasião, que o próximo espetáculo do Odin seria baseado na obra poética de Paulo Leminski. Não sei se o fizeram.
Com certeza, eles teriam grande material à disposição se voltassem ao Brasil agora e se deparassem com a humilhação crescente que estão infringindo aos índios. Além do Odin, outros grupos de teatro, sobretudo os nacionais, podiam se interessar pelo tema. No Brasil, a veia indígena sangra constantemente, de norte a sul, onde vemos kaiowás, pataxós, kaparaós e outras tribos que lutam como podem contra barragens como Belo Monte ou barreiras que querem impor para destruir sua cultura. Pouco se fala de questões gravíssimas como esta, apesar do drama implícito. Sobre a Aldeia Maracanã houve protestos pálidos nas redes sociais, no meu ponto de vista, tendo em vista a gravidade de tudo. Para muita gente, índio ainda é personagem de cinema. Mas há um drama em curso, marcado por conflitos raciais, mentalidades díspares, pensamentos disformes e os aleijões da violência.
Os índios brasileiros, neste momento, deviam estar não só nas aldeias, mas no centro dos palcos para vermos se as plateias, enfim, escutam seus tambores e seus gritos. A cultura há de embalar a cultura se quiser mostrar a que veio. Fica a ideia aos criativos de plantão, pela originalidade que nem sempre é mapeada em nossa pungente mistura. Vamos nos voltar mais às aldeias e menos aos estádios. Esse é meu estranho sonho, como aquele de Andersen, em que o personagem é chamado a viajar no navio do rei, mas acaba sendo escravizado ao tomar outro barco. Algo a ver com a barca furada da Copa e o humanismo de araque "de todas as nações."

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