CÉLIA MUSILLI - Um encontro real
Uma vez recebi uma pauta especial, fui cobrir a visita da Lady Di a Foz do Iguaçu. Faz tempo, início dos anos 90, os colegas Bernardo Pellegrini e os irmãos João e Carlos Arruda me incumbiram de várias missões. Queriam saber o que a população de Foz achava da visita da princesa, para isso cheguei um dia antes. Pediram que eu ficasse ligada no seu roteiro, roupas, modos, simpatia, alguma gafe do cerimonial, um incidente. Queriam as impressões de ver uma princesa de perto, sem cair no deslumbramento nem na indiferença. Chegando a Foz, surpresa: constatei que a população não estava nem aí com visita tão nobre. Um vendedor de bugigangas quando lhe perguntei o que achava do assunto, respondeu: "Ah! então a Lady Di vem aí?"
Desmontava-se assim a primeira cena, o clima era outro, talvez porque a princesa fosse apenas no parque, não passaria pela cidade. Pensei então em fazer primeiro uma "anti matéria", contando que a visita da princesa não era assim tão aguardada e que nas ruas, em vez de pessoas com cara de súditos, eu encontrava vendedores de cachorro quente preocupados com o ketchup e os guias de sempre acompanhando turistas. No mais, restavam um ou dois hotéis cheios de paparazzi, com equipamentos potentes para flagrar até os suspiros de uma celebridade. Imprensa nacional e internacional estavam lá.
Na véspera da visita, fui ao hotel do Parque Iguaçu para entrevistar funcionários que se mantinham de bicos fechados. Tentei falar com o responsável pelo coffee break da princesa, poucas palavras, escapou apenas a informação de que tinha ido à Argentina comprar queijos. Achei engraçada a ideia de um possível contrabando no país onde cada habitante consome, em média, 12 quilos de queijo por ano. Estiquei o pescoço e ainda vi na sua mesa uma lista que contava com vários tipos de pães, geleias, patês, sucos, chás, frutas, enfim, um menu tão extenso que daria para alimentar a guarda real por uma semana. Se bem me lembro, a princesa não comeu nem um brioche.
Foi divertido vê-la descer do helicóptero no meio do parque, acompanhada pela embaixatriz Lúcia Flexa de Lima que parecia vestida para um safári. Lady Di, muito simpática, ficou encantada com um quati que cruzou seu caminho. Risos, câmeras disparando, fotógrafos vibrando com a graça do encontro. Naquele dia, o quati também ganhou seus 15 minutos de fama. Em cerca de uma hora, se muito, a princesa entrou outra vez no helicóptero, sempre acenando, a revoada dos paparazzi se desfez, o parque voltou ao normal, num silêncio que dava de novo para ouvir os passarinhos.
No dia seguinte, a passagem de Lady Di por Foz do Iguaçu era manchete nacional. Na Folha de Londrina tínhamos o trunfo dos queijos contrabandeados e também a inusitada imagem do quati que estava no meio do caminho. O que me trouxe de volta esta história foi um cartão-postal da princesa que encontrei na internet esta semana, tendo ao fundo as cataratas.
Lady Di teve um fim trágico. Já o quati, ninguém me tira da cabeça que o bicho foi contratado para um reality show. Fez muito bem seu papel, sobre o cachê nada se soube.
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