CÉLIA MUSILLI - Um encantador de palavras
Manoel de Barros é um encantador de palavras. Outro dia imaginei o poeta tocando uma flauta, com a caneta apoiada numa das orelhas. Conforme tocava, as palavras iam surgindo na sua mente, depois, quando tudo se aquietava, ele as desenhava no papel. Ou será que o poeta escreve à máquina? Talvez, mas vejo-o tão cheio de humanidades, dando tratamento sublime aos bichos e às folhas, que calculei que a caneta, deslizando no papel, combina mais com ele. E ninguém pode me impedir de imaginar, ainda que eu nem cogite os computadores. Hoje não estou para falar de realidade, mas de ilusão.
Quando estou chateada com a vida dura porque a realidade tem pedras, além de nuvens pego a Poesia Completa de Manoel de Barros para sossegar. Nesta hora, envergonho-me de tudo o que já escrevi, vejo nele a magia intensa de um conhecedor de palavras. Alguém que extrai pétalas de pedras. Das nuvens nem se fala, acho mesmo que ele as comanda com sopros. O fato é que Manoel de Barros é meu antidepressivo, meu Lorax, meu Lexotan, meu chá de cidreira, capim mágico para meu touro intranquilo, para minhas teimosias, defeitos e inadequações.
Toda raiva dilui-se como fumaça quando abro o livro e encontro anotações antigas, coisas que ele diz de forma coloquial, mas tão intensa que paro alguns minutos meditando sobre aquilo e pergunto: como o homem pode criar tal coisa? De onde saem essas imagens que ninguém pensou antes?
Se fosse para inaugurar um mundo totalmente novo eu chamaria Manoel de Barros, um país com seu projeto de ser passarinho já bastava. E seria muito mais delicado viver num universo que tomasse gosto pelas frases dele e se materializasse em coisas engraçadas, bem humoradas: "Sapo é um pedaço de chão que pula." Ou "Vento?/ Só subindo no alto da árvore/ que a gente pega ele pelo rabo."
Que mundo fabuloso esse do chão que vira sapo e fico imaginando que nele descolaria um cargo de ser borboleta, só para bater as asas como quem vive de brisa.
Se estou triste, pego um livro de Manoel de Barros, tiro uma hora do dia, sem pena de parar os ponteiros do sustento, do trabalho, do compromisso, e faço olhos de ler poesia sem arrependimento. Sei que é assim, de forma relaxada, que o poeta investe no seu leitor futuro, porque a poesia dele é destinada, ele sabe que quando escreve ali, naquilo que chama de seu "escritório de inutilidades", um outro inútil, no dia em que sentir que nada mais vale a pena, pode abrir seu livro, decretando à vida dura que seja bela. A vida se transforma ou pelo menos as coisas mudam de lugar, pulando como rãs de tanques imaginários, quando esses magos da palavra nos tiram do horizonte apertadinho do relógio, do sufoco de ser útil, do viver apenas para pagar as contas.
Se vai funcionar para vocês não sei, mas recomendo que num momento qualquer deste domingo vocês procurem um pedaço de poesia como quem come pão, procurem um verso a esmo e leiam com atenção o que pode ser uma nova forma de ver a vida. Inaugurem o domingo de outra maneira, elejam a delicadeza como parte insofismável da nossa união com a beleza. Mas leiam se entregando, com toda concentração. Se mesmo assim vocês não se curarem da angústia, dobrem a receita e sei que chegará a hora da compreensão verbal que tudo cria de novo. A poesia deve ter nascido no sétimo dia que é o dia do descanso. A hora da poesia é a hora do "nada", aquela na qual a gente encontra o mistério de se emocionar pelas coisas da Terra, tocados por um afeto invisível e presente como Deus. Poesia também é missa.





