Da noite para o dia, a escocesa Susan Boyle tornou-se a Cinderela do show business, a nova sensação da mídia mundial. O triunfo se deu há pouco mais de dez dias, quando ela se apresentou num show de calouros em Londres, o Britain's Got Talent. No início, foi recebida friamente e até com cinismo pelos jurados e a plateia. Afinal, Susan contrariava os padrões de beleza e os parâmetros do que se entende por ''talento'' no universo tomado por beldades como Priscila do BBB9, que vão à TV mostrar os peitos e a... Melhor deixar pra lá, não é?
Gorda e desajeitada, mas à vontade com a própria aparência, Susan chegou ao programa mantendo uma postura humilde, mas segura, típica de quem não tem vergonha de ser o que é. Disse aos jurados que morava numa pequena cidade da Escócia, confessou que nunca tinha sido beijada por um homem, que até 2007 cuidara da mãe doente e que, atualmente, morava sozinha com seu gato. Com ar de desdém diante da candidata, plateia e jurados balançaram a cabeça, inconformados com a falta de brilho de quem desejava ser cantora profissional. O auditório caiu na gargalhada quando Susan falou sua idade: 47 anos e, quase sob vaias, ela emendou: ''Mas isto é só uma parte de mim'', rebolando de leve, como quem dá o troco à ''torcida''. Depois da sabatina, disse que cantaria ''I Dreamed a Dream'' tema do musical ''Les Miserables'', e então soltou a voz que, desde as primeiras notas, teve o dom de transformar o patinho feio em cisne, a cantora anônima num enorme sucesso.
Pois é, senhores, poderíamos dizer que milagres acontecem, que Susan tem sorte ou qualquer outra baboseira que disfarce o imenso preconceito que sempre chega à frente dos valores reais. Porque a plateia e o júri caíram de quatro pelo talento de Susan, mas antes ela teve que passar pelo constrangimento de ser julgada pela aparência. Porque o mundo se esquece que as aparências enganam e, muitas vezes, bate uma vergonha danada por fazermos parte de uma sociedade que discrimina os diferentes ou os desajeitados.
Esse cinismo vai mais longe. Diante de uma pessoa simples e de poucos atributos físicos, a tendência de quem se considera ''uma pessoa de bom gosto'' é expressar seu desagrado, com preconceito, deselegância e vaias. Quantas vezes em programas de calouros não vemos apresentadores, com o apoio da plateia, submeterem ao ridículo um candidato considerado fraco ou inadequado. De antemão, não há respeito pelos fracos nem pelos feios, nem por qualquer pessoa que não exiba as formas e as atitudes desejadas. Mas no fundo, o mundo sim se tornou muito feio, desde que a aparência se transformou no principal parâmetro de uma sociedade que mede as oportunidades das pessoas pela sua estampa. E, sobretudo as mulheres, oferecem como ''medida de valor'' o tamanho dos seios, o diâmetro do quadril, os cabelos que balançam como se estivessem sempre gravando um anúncio de xampu. Em resumo, os feios não têm vez. A não ser que sejam dotados de um talento excepcional como Susan Boyle, a Cinderela do show business que passou pela prova de fogo do preconceito. Exceção à regra, é verdade, porque outros milhões de feios continuam sendo tratados como gente inferior quando buscam empregos ou oportunidades.
Agora, a cantora de 47 anos, gordinha e que nunca foi beijada, está recebendo propostas de várias gravadoras e até mesmo um convite indecente para estrelar um filme pornô. Susan não é boba. Por enquanto, avalia as propostas e, com a simplicidade que lhe é peculiar, continua morando no interior da Escócia, onde canta para os amigos e também quando estende roupas no varal. Questionada sobre seus planos, ela responde: ''Vou dar passos bem pequenos, passos de bebê'', avaliando o sucesso sob outra ótica. Sem deslumbramento, sem ceder aos apelos imediatos daqueles que a vaiaram.
Para se ter uma ideia, o vídeo que mostra Susan Boyle se apresentando no programa de calouros já foi visto 100 milhões de vezes no Youtube. Para estabelecer comparação, a posse de Barack Obama foi vista por 18,5 milhões de pessoas na rede. O que não é nadinha perto da popularidade da nova Cinderela.
Torço para que Susan Boyle não ceda aos apelos fáceis da mídia e que faça sucesso mantendo a consciência primordial de seu real valor. Torço para que a sua segurança e simplicidade prevaleçam como valores a serem imitados pela sociedade narcísica que construímos, o mundo das aparências que rejeita os fracos e os feios. Missão difícil, diria quase impossível, porque o sistema vai cooptando as pessoas, já vi rebeldes se transformarem em capachos sob os holofotes. Mas não custa manter a esperança de que Susan tenha se transformado não apenas num cisne, mas num cisne corajoso.
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