Nefelibata. A palavra é estranha, nem chega a ser bonita, mas tem um significado poético. Cheguei à conclusão que sou uma nefelibata, "aquela que anda nas nuvens", de certa forma fugindo da realidade. Realidade pra quê? (risos). Já bastam alguns excessos inevitáveis. Gosto tanto das nuvens que, quando viajo, as janelas dos veículos se transformam no meu cinema particular. De avião nem se fala, céu vira mar, com ondas se levantando como plumas que Deus soprou por aí. Mas há os enquadres das janelas dos ônibus ou carros, com todas as rodas na terra e meu olhar no céu.
Distraí-me em viagens longas olhando janelas, principalmente ao pôr-do-sol que todo dia é diferente. Não há um só tom que seja idêntico, nenhuma formação de nuvens. Tudo é inédito, como se Deus fizesse assim sua oficina de artes plásticas.
Admiro quem estuda as nuvens, quem pesquisa suas formas entendendo o que é uma cumulonimbus, geralmente prenunciando tempestades, e que pode ser "velum", ou seja, nuvem ondulada, ou "arcus", em forma de concha ou rolo.
Nuvens são mesmo um cinema, nelas vejo personagens que se formam e se desmancham, um cão que corre atrás de um gato e, de repente, é engolido por ele? Só nas nuvens. Quase sempre quando olho o céu por esta perspectiva de imagens, vejo animais, algo a ver com meu inconsciente talvez , onde sempre há cavalos a galope ou borboletas de asas lânguidas e tão transparentes que nem precisam se esforçar para serem nuvens.
Há um poema de Brecht que diz assim: Naquele dia, num mês azul de setembro/ em silêncio, à sombra da ameixeira/ eu a tomei nos braços: amor pálido/ e quieto como um sonho formoso./ E acima de nós, no belo céu de verão/ havia uma nuvem que olhei longamente:/ era bem alva, estava bem no alto./ Ao olhar novamente, desapareceu. (Recordação de Marie A.)
Nota-se aí que Brecht relaciona nuvem com amor, nada mais preciso, nada mais efêmero. Está ali e de repente não está mais. O que não faz com que a gente desista do amor, apenas procure outras formas.
Procurar o amor, talvez seja como olhar nuvens. Elas parecem perfeitas num instante, em outro o encanto desaparece, mas sempre fica a memória do momento em que vemos exatamente as mesmas coisas junto com alguém. Depois os olhares divergem, os horizontes se reduzem ou ampliam, cada um segue para um lado, mas lá, no meio do céu onde aconteceram encontros, um desenho de nuvens persiste como marco daquilo que foi bom. Porque o amor sempre é bom, mesmo quando se dissipa.
Como uma nefelibata, vou assim olhando a vida, como quem vê as nuvens, ciente de todas as mudanças que descongelam a realidade, cheia de momentos líquidos e vaporosos, como as nuvens. Não há solidez na realidade, se pensarmos bem. Tudo o que nos cerca e é natural muda sempre.
Acredito que na sua oficina de artes plásticas, Deus seja de uma imaginação sucessiva, ininterrupta, sempre modificando a criação. Só é estático o que realmente morre. O que é vivo se mexe. Talvez por isso, as nuvens mudem de lugar, amores mudem de endereço e num plano bem íntimo vamos ficando com uma espécie de caleidoscópio onde se inscrevem nossas vivências. Está tudo certo, nem Deus gosta de monotonia, se gostasse, não desenhava tanto.

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