CÉLIA MUSILLI - Um brinde à banalidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de maio de 2015
Fico perplexa com o volume de banalidades divulgadas pela mídia, sobretudo nos sites. Há duas semanas, o nascimento da filha do príncipe William tomou conta das manchetes, mais que o nascimento, a escolha do nome da nova princesa valeu apostas, blefes, críticas e comemorações até o anúncio oficial de que ela se chamaria Charlotte Elizabeth Diana. Suponho que quem carrega um nome desses já nasce com um peso danado nos ombros, um rastro histórico que talvez justifique o alarde. Mas não demora muito, teremos aqui mesmo no Brasil uma porção de meninas chamadas Charlotte Elizabeth Diana, já não bastassem as Kellys Jessicas e as Anittas Madonnas.
Passada a onda real, lideraram os noticiários as presenças de Dilma e Lula no casamento do cardiologista Roberto Kalil Filho, em São Paulo. Mais do que os vestidos, chamou a atenção a relação cordial da dupla petista com as filhas de Eduardo Cunha e outros nomes pop-políticos presentes à cerimônia. Também mais do que os vestidos, chama minha atenção o botox no rosto de Dona Mariza, um exemplo de durabilidade que só empata com o do seu marido nas hostes do poder republicano. Na verdade, entre impérios e repúblicas - de qualquer sigla, brasão ou insígnia - os costumes mudam pouco. O rame-rame social ainda é um amendoim que as focas se esforçam para abocanhar para se manterem sob os holofotes.
Lula e Dilma só perderam a vez para o casamento de Preta Gil, de véu, cauda e grinalda na Igreja Nossa Senhora do Carmo, a mais fina do Rio. Lustres de cristal baccarat e milhares de flores não foram suficientes para disfarçar a cara contrariada da noiva que sempre parece insatisfeita. A impressão é que Preta Gil é um projeto que nunca deu certo.
Mas se toco nestas manchetes com o mesmo vigor e aplicação que vi nos sites e nas redes sociais é para criar um "arremedo cultural da banalidade". Faz tempo que ando de olho na frequência com que a futilidade toma de assalto os veículos que se julgam sérios e escorregam na primeira casca de banana atirada ao chão da superficialidade. Nada tenho contra essas notícias, que circulem à vontade nas colunas sociais, elas foram feitas para isso mesmo. O duro é ver espaços denominados "culturais" tomados por tititis e conversas de salão.
Teatro, cinema, música e literatura têm cada vez menos espaço. Bailarinos que passam de 8 a 12 horas por dia ensaiando concorrem com os vestidos de fenda da Sabrina Sato e quase sempre perdem. Da mesma forma, autores com carreiras sólidas ganham entrevista de quatro perguntas em dias de sorte, enquanto Bruna Marquezine leva o destaque para mostrar como se dança num cabaré em Nova York.
Comecei a duvidar da inteligência e da sensibilidade dos meus contemporâneos desde que os jornais passaram a imitar a internet com notinhas, penduricalhos e piadas no lugar de matérias de reflexão, opinião e conteúdo. A derrocada da mídia tradicional, que esta semana anunciou que vai divulgar notícias diretamente no Facebook, é fruto da casca de banana que ela própria atirou aos seus pés ao abdicar do seu status de formadora de opinião fiel ao seu próprio meio.
Da minha parte, olho de viés para toda esta novidade, ansiando ainda por boas entrevistas, resenhas críticas, artigos de opinião. Ainda não abdiquei do pensamento. Mas tiro minha casquinha da banalidade trazendo os leitores até o fim da coluna para reafirmar que a princesinha se chama Charlotte, Dilma e Lula foram a uma festa de gala e Preta Gil se casou. No fim das contas, lamento informar que tudo isso não tem a menor importância, trata-se apenas de um desvio do jornalismo que não tem quase mais nada de elegante.



