''Paisagem natural, cabeça de mulher nas nuvens.'' Hoje acordei com esta frase surreal. Veio do sopro de algum anjo artista, um anjo poeta, destes que ampliam nossa visão, nos puxam os pés debaixo das cobertas para dizer que há um mistério, um mistério, um mistério a ser revelado.
Há duas maneiras de viver, sucumbindo ao pragmatismo e achando que assim estamos no caminho certo ou inventando sentidos muito além das coisas concretas, fazendo da vida uma coisa lúdica, uma inspiração, uma brincadeira.
Em alguns dias não há como fugir dos compromissos, das agendas que nos amarram a tarefas inadiáveis, embora o mais inadiável seja o prazer de viver e tantas vezes nos esquecemos disso.
Em outros dias, porém, dou vazão ao que chamo de lúdico, que é nossa reinvenção do cotidiano das amarras, colocando em seu lugar a liberdade de abrir os sentidos, interagindo mais com o mundo, este objeto imenso. Quero dizer que a brincadeira está ali mesmo numa cena de rua, que nem sempre temos olhos para ver. Pode ainda estar nas risadas das crianças, que nem sempre temos ouvidos para ouvir, na maciez de uma flor que não pegamos. Enfim, temos cinco sentidos mal utilizados, mesmo quando os temos em condições perfeitas.
Minha sugestão é ampliar os sentidos para desenvolver uma percepção fantástica da vida. Cheirar mais, ouvir mais, enxergar mais, degustar e pegar como fazemos na infância, na fase das descobertas. Os adultos têm o péssimo hábito de achar que já sabem tudo e desistem de aprender. Talvez, na infância, nos condicionem a um determinado tipo de aprendizado, uma quantidade de coisas que precisamos saber, nos limitando depois a busca porque saber demais é ''perigoso''.
Minha proposta hoje - em fase de maturidade que às vezes resvala em perplexidades, angústias, dor e também prazer - é retomar a invenção no cotidiano, brincar mais, eleger o lúdico, como quando pegava varetas num jogo que exigia acuidade de sentidos e atenção.
Na vida adulta perdemos a curiosidade e não prestamos mais atenção às coisas. Perdemos também o lirismo que está nas ruas ou numa frase solta que vem do nada para pousar em nossa mente como esta da ''paisagem natural, cabeça de mulher nas nuvens'' que apareceu aqui inspirando este texto, que saiu como uma brincadeira e chegou a um objetivo quase por descuido. A única coisa que fiz foi não deixar a frase escapar, então, brinquei com ela.

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