CÉLIA MUSILLI - Um agradecimento
Hoje escrevo para dizer que não acredito em bruxas, embora elas estejam presentes em minha vida. Elas são mulheres que se tornaram minhas amigas de forma inexplicável e insubstituível, me acompanham há anos como estrelas que me protegem nas horas boas e ruins. Elas não se parecem com feiticeiras, embora eu às vezes desconfie que sejam ninfas, salamandras ou sereias. Elas borbulham no caldeirão das sensibilidades, gostam de música e poesia, cinema e teatro, assistem novelas e também as escrevem, só para dar asas à imaginação num cotidiano onde cabem lendas, desde que você acredite nelas.
Todas adaptam-se à vida urbana, estudam, trabalham e têm filhos, embora gostem do campo para meditar, respirar ou curtir a tranquilidade de um rio.
Com elas fiz saraus, li alguns livros, troquei idéias, impressões, vestidos, ri e chorei. São elas as destinatárias de algumas de minhas mensagens, algumas tão secretas que nem escrevi, depositei com delicadeza em seus ouvidos e elas me presentearam com outras visões, outros ângulos, tornando minha vida mágica, embora sejamos todas passageiras da mais concreta realidade.
Elas têm nomes sonoros como Maria Angélica, Sônia, Yara, Adriana, Suzy. Seus nomes me lembram anjos, sonhos, águas, paisagens, bonecas. Todas tão femininas que me fazem pensar que a magia é a quinta essência das sutilezas, aquela que paira no éter, que se traduz em sentimentos e pensamentos leves como as plumas, tangenciando dimensões de amor, carinho, palavras breves, desejos profundos.
Não preciso falar demais com minhas amigas bruxas. Nossas conversas são às vezes telepáticas e, mesmo que a gente não se encontre, sabemos o que se passa no coração de cada uma. Substituímos a linguagem objetiva por uma afetividade que voa, talvez em vassouras, nos transformando em correspondentes em qualquer lugar do planeta.
Por tudo isso, deixo aqui uma Carta às Bruxas, na verdade uma homenagem que não depende de datas. Trata-se apenas de um agradecimento ao que passamos juntas, descalças ou de salto alto, tecendo a feminilidade como experiência sagrada.





