CÉLIA MUSILLI - Tudo é linguagem
Escritores fazem exercícios de linguagem, guiados também pela busca da linguagem perfeita, não exatamente para apreender a realidade, mas para superá-la naquilo que é inapreensível. A invenção de palavras - ou sua apropriação para significar algo diferente do usual - faz parte dos truques autorais que me estimulam, da magia de tentar entrar no âmago da palavra para ver, afinal, qual a resposta se existe dentro dela.
Ao ler "Os Rebeldes geração beat e anarquismo místico" (LP&M, 2014), de Claudio Willer, deparei-me com um trecho em que ele fala de "On The Road" abordando as passagens mais citadas nos ensaios sobre o livro. Segundo Willer, "são aqueles em que Cassady e ele (Kerouac) se põem a discorrer sobre 'IT' (AQUILO na tradução brasileira). É algo imponderável, impossível de ser descrito de modo discursivo, porém captado através da audição de um inspirado clarinetista:
(...) são confissões vindas do âmago de seu umbigo, lembranças de ideias, reinterpretações de velhos sopros. Ele tem que tocar cruzando todas as pontes, ida e volta, e tem que fazê-lo com infinito sentimento, explorando as profundezas da alma, porque o que conta não é a melodia daquele momento, que todos conhecem, mas AQUILO."
Lembrei-me então que Clarice Lispector em "Água Viva" o livro dela que mais gosto (Nova Fronteira/ 1979) -, também discorre sobre o "it" em vários trechos, na verdade, o pronome é um dos mistérios do livro, o que faz da sua emoção e, por extensão, da sua escrita algo também imponderável:
"Mas há também o mistério do impessoal que é o 'it': eu tenho o impessoal dentro de mim e não é corrupto e apodrecível pelo pessoal que às vezes me encharca: mas seco-me ao sol e sou um impessoal de caroço seco e germinativo. Meu pessoal é húmus na terra e vive de apodrecimento. Meu 'it' é duro como pedra-seixo."
Ou então: "A transcendência dentro de mim é o it vivo e mole e tem o pensamento que uma ostra tem. Será que a ostra quando arrancada de sua raiz sente ansiedade? Fica inquieta na sua vida sem olhos. Eu costumava pingar limão em cima na da ostra viva e via com horror e fascínio ela contorcer-se toda. E eu estava comendo o it vivo. O it vivo é o Deus."
Mais de uma vez Clarice tentou alcançar a plenitude ou o abismo da linguagem. Chegou a definir sua literatura como "abstrata" que, numa aproximação com as artes plásticas, seria chegar àquilo que nos toca sem muitas explicações, toca pelo impacto de ver uma palavra subvertida, uma pincelada que não se parece com nada neste mundo e até por isso nos captura pela originalidade, seguida de um pensar sobre o significado que buscamos no "em vão" ou mesmo no "vão", de tantas coisas. Clarice também definiu seu livro "Um Sopro de Vida", publicado postumamente, não como literatura, mas como "pulsações". Poucos escritores me deixaram suspensa nas impressões como ela.
Sobre o "it" de Kerouac, ouvi de Claudio Willer, que é tradutor e exímio ensaísta da literatura beat, que o pronome pode representar o "eu verdadeiro", que tomo como a essência que nos conecta com o cosmos, o salto para a transcendência de outros tantos "eus" que formam nossas personas. Haveria em nós uma fagulha mais autêntica, uma fagulha que nos humaniza ao mesmo tempo em que nos "transcendentaliza" e uso aqui uma palavra que representa o salto, no caso, a transposição da linguagem, a superação da realidade que pode ser o "it" que Clarice compara, enfim, "ao Deus." Clarice estava sempre em busca "daquilo", da "coisa", assim como Kerouac, sem que isso signifique que um tenha lido o outro. A mesma palavra em textos de ambos os autores apenas dá pistas sobre os criadores que, no caso da literatura, nos conduzem ao mistério do Verbo, a partir do qual tudo é possível ou se faz. Em outras palavras, tudo é linguagem ou aquilo que tomamos simbolicamente para criar e recriar mundos.
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