CELIA MUSILLI - Tragédia anunciada
2010 começou no Brasil sob o signo de uma paisagem triste. Angra dos Reis (RJ) entre outros locais do País, viveu uma espécie de ressaca que não tem nada a ver com o réveillon. Ainda que estejamos distantes da tragédia, que nenhum parente ou amigo esteja entre as vítimas dos deslizamentos de terra, aquelas cenas deixaram o Brasil de luto. Angra e Ilha Grande, um dos cartões-postais do nosso litoral, ficaram marcadas pela tristeza.
Quem conhece as praias do sudeste sabe que ali a natureza nos contempla com seus excessos. Recortado por montanhas, que começam em Ubatuba (SP), o cenário une praia e floresta, numa exuberância que invade o Rio de Janeiro até se converter na beleza que para mim atinge seu clímax na Baía de Guanabara. Até chegar lá, há no caminho muitas outras baías, enseadas, ilhas, quilômetros de praias em que o verde e o azul se misturam.
Mas a beleza que atrai também é a beleza que trai ou se vinga, como mulher maltratada. Porque a tragédia não é senão o resultado dos maus tratos que sofrem a floresta e o morro, ocupados indiscriminadamente até chegar à erosão da terra fraca que cobre de forma superficial as pedras onde a mata já se pendurou teimosamente. Retirada a vegetação sobra o risco, na sequência do risco a tragédia, anunciada a cada verão de chuvas fortes.
Eu estava em Paraty quando aquele pedaço do litoral virou manchete nacional naquele réveillon de luto. Na véspera chovia torrencialmente como se toda água do planeta precipitasse das nuvens que encobriam os morros. Réveillon sem praia ou com celebrações comedidas nas águas de Iemanjá, o ano de 2010 amanheceu com uma cara cheia de lágrimas, com o movimento dos bombeiros e de toda população que se solidariza não só na alegria, mas também chora seus mortos. Podia ser diferente se, há décadas, os apelos para que a natureza fosse respeitada tivessem surtido algum efeito sobre a ganância ou o simples descaso. Mas nada foi feito e a gente pergunta: até quando?
2010 desponta sob a égide de um ano eleitoral em que milhões de reais serão gastos em campanhas pelos partidos que prometem - e nunca cumprem - o desejo de oferecer uma vida melhor à nação. De promessas, senhores, estamos cheios, de tragédias, idem. Porque dos verões marcados pelas enchentes e os deslizamento de terra dos últimos anos, sobram bem poucas lições a cada eleição. Mais uma vez, rios de dinheiro e oceanos de promessas vão invadir os veículos de comunicação, com toda máquina eleitoreira azeitada para devorar os votos. Cabe à população, e não só às autoridades, dar um basta às promessas fracas como terra erodida. Se houvesse consciência e respeito à vida, o dinheiro a ser moído em campanhas poderia ser revertido em obras sociais e de infra-estrutura para que a natureza deixe de desabar sobre as nossas cabeças, porque não somos só suas vítimas, mas também seus algozes.
E não é preciso que ninguém me informe sobre o tamanho da minha utopia. Sei que milhões de reais mais uma vez vão se transformar em publicidade que somos obrigados a engolir, como fomos obrigados a engolir obras como a Usina de Angra que, além de triplicar a energia também triplica os riscos na região assolada pela tragédia. Com as enchentes, os desmoronamentos e a força das marés, as usinas nucleares podem sofrer vazamentos que acabariam em outro luto. Mas ninguém se importa e em nosso complexo tupiniquim ainda enchemos a boca para dizer que ''a usina foi construída por engenheiros alemães.'' O que quase ninguém diz é que o local onde Angra I e II foram construídas é chamado Itaorna, palavra indígena que pode ser traduzida como ''pedra apodrecida.'' Vai daí que os técnicos alemães talvez não soubessem o que os silvícolas já sabiam: num território frágil, de solo amolecido, não se constrói para a vida e sim para a morte.
Resta torcer e rezar para que nunca ocorram vazamentos que converteriam para sempre uma das regiões mais bonitas do Brasil num território de desolação. Tomara que o luto nunca nos contamine nesta medida. Mas o que parece delírio apocalíptico às vezes se transforma na mais triste das realidades. Esta é a lição que nos deixa o último réveillon em que a celebração se converteu numa tragédia anunciada.
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