Andou chovendo forte e o aguaceiro veio acompanhado de muita eletricidade. Relâmpagos e trovões são um espetáculo à parte. Sinto-me bem espiando a revolução. Um misto de prazer por estar protegida em casa - como nos contos em que os personagens acham uma cabana - e de fascinação pelos clarões e o barulho. Os iluminadores de shows de rock devem se inspirar em tempestades. Um pipocar de luzes acompanhando todo aquele ''ruído'' que para mim é ainda a melhor música do planeta.
De vez em quando os seres humanos também armam tempestades, faíscam de raiva ou de euforia. Eu prefiro a segunda alternativa, ser tomada pela eletricidade do prazer e da felicidade. Mas esses momentos são raros. As tempestades de raiva, nem tanto. Hoje penso duas vezes antes de brigar no trânsito e no trabalho procuro não perder a cabeça a todo instante. As reações contidas sempre explodem de outros modos, em relâmpagos interiores. Quando acabam em criatividade é bom. Mas tem gente que adoece.
Já disse aqui que sou suscetível ao clima. Sou a ''moça do tempo'' ao meu modo. Dias de sol me inspiram a liberdade de sair por aí - ''let's the sunshine!'' Adoro o contato do sol na pele, aquele colorido que a gente vê mesmo de olhos fechados.
Um dia entrevistei uma mulher que afirma que se alimenta de luz. Diz que existem centenas de pessoas assim, fazendo uma espécie de fotossíntese. Ela disse também que as impressões a alimentam e que ela não come, mas tem em sua casa potes de cereais e grãos coloridos. Olha para eles e se sente satisfeita como se tivesse jantado.
Querem mais? O marido desta mulher é músico e criou um ''cardápio de sons''. Eles comem o que veem, o que ouvem. A teoria é baseada no fato de que a glândula pineal é ativada através de impressões que passam recados de ''satisfação'' ao organismo. Disse mais: que nós, pessoas comuns, nos alimentamos como as locomotivas antiquadas que precisam de carvão e que há outras fontes de energia muito mais limpas e evoluídas! É, eu sei que parece conversa de maluco, mas uma coisa aprendi: se você olhar para o sol, por um centésimo de segundo, a claridade provoca um bem-estar como se recarregasse suas baterias.
Da minha parte, prefiro ficar ao sol como um gato, tomando um banho de energia que está entre os melhores da natureza. Mas também adoro banhos de chuva. É um emblema da liberdade que nos tira da redoma da segurança máxima. Voltamos a estágios mais primitivos, porque segurança em todos os momentos da vida nos transforma em seres medrosos. Precisamos nos arriscar em situações novas. Só elas transmutam nossas experiências, provocando o nascimento de outras formas de ser. Parodiando Nietzsche, ''a vida sem riscos seria um erro''. E hoje, se o tempo virar, vou tomar banho de chuva.
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