CÉLIA MUSILLI - Textos esparsos
Eu do avesso
Este meu lado de dentro não combina com meu lado de fora. Nasci na contramão da certeza. Por isso, um dia um amigo disse que havia outra mulher dentro de mim. Eu respondi distraída: ''É que você vê meu miolo''. Ele riu e não me disse nada. Passaram anos, este amigo atravessou o oceano, mas aquele fio de conversa virou uma meada na minha cabeça, onde tudo cresce. Então descobri em mim uma mulher pacífica e outra tiririca de ruim. Uma angelical, outra que rebola. Uma que se aquieta num canto, outra que dança rumba. Uma capaz de viver de dia, outra que só vive à noite. E pensei: ''Mulher é como a lua. Muda de fase e quando a gente está quase se acostumando com ela, fica clarinha, clarinha ou escura de arrepiar''.
Por isso, os que se chegam a mim estranham o olho gateado que faísca de repente e quando pensam que vou avançar, canto música de ciranda. Eu sou uma menininha que cresce em três tempos, se me provocarem. Eu tenho um pé na loucura. Um não, dois. No dia em que um cachorro me mordeu, retribui a gentileza e ele saiu ganindo de dar dó. Mas também sei miar pedindo colo e enrosco na perna do dono, porque meu lado de dentro não combina com meu lado de fora. Vivo uma vidinha espremida entre dois atos, controvertida e sem entregar de bandeja meus humores. Quem gostar de mim que me adivinhe, cansei de ser camarada. Tem gente que acha que camarada é besta. Hoje amarro minha sensibilidade num pavio, bem curto. E quando saio na porrada até os malandros me respeitam. Descobri que tenho corpo fechado. Minha loucura é meu escudo e minha fraqueza. Minha loucura é minha fantasia.
Líquida
Às vezes é preciso esperar que a noite termine para que os pensamentos se aquietem. No escuro, eles passam feito cardumes. Ao amanhecer alguns emergem até a superfície para se alimentar, transformando-se em desejos satisfeitos. Outros voltam às profundezas à espera da noite seguinte quando afiam guelras, escamas, lâminas, movimentando-se num balé líquido em minhas marés imateriais. Tenho alguns desejos satisfeitos. Outros submersos em reinos que ninguém adivinha.
Pensamentos marítimos
Na praia meu olhar se alonga muito além das ondas, até encontrar o céu. Naquele paralelo de azuis, no encontro da natureza em perfeita paz de espírito, percebo o que seria o infinito quando se juntam os véus. E o mistério continua, mas me ocupo das maravilhas.
Na praia, quando sinto a pele sobre a areia e as conchas penso na chance de encontrar as pérolas, a essência esquecida das ostras, o sortilégio dos búzios, os tesouros marítimos que afundam e emergem como um barco de brinquedo, sem leme. E já não tenho medo do futuro, porque tudo é possível. Então, vejo como é amplo o pensamento humano, vai muito além das ondas e das nuvens, tramando sobre as possibilidades gigantescas ou microscópicas da vida que me toma de assombro, com inumeráveis surpresas.
O mar e seus sons primordiais me encantam. Passo a acreditar nas sereias, nas lendas a serem escritas, nos papiros em garrafas, ainda que tudo seja ilegível. Tudo é segredo entre mim e o mar. Não há nada a ser descrito senão a incrível sensação de entregar-me sinuosa ao balanço da água, flexível, mesmo quando encontro as rochas e sua dureza talhadas a sol e a sal. Esfinges calcárias como as pessoas que me deixam sem respostas quando o silêncio engole a paixão, sob algumas léguas submarinas.
Aqui e agora
Hoje vou me dedicar às coisas que fazemos sozinhos, aquelas que pedem quietude e delicadeza. Nada muito grandioso, apenas o pulsar dos pequenos gestos que não exigem esforço, não alteram minha respiração nem meus batimentos cardíacos. Enjoei dos riscos, das perguntas sem respostas, das incertezas que dependem de um sim, da afirmação que abre espaços inseguros, porque na hora H as ondas se movem e a vida não cabe na garrafa. A vida é um licor que transborda.
Então vou fazer aquelas coisas que não exigem nada, que se completam em si mesmas, atos tão simples como enfiar as contas de um colar, calçar as meias, apreciar objetos, olhar a chuva, acender incensos, sentir a náusea de um perfume antigo, guardar a caixinha de sândalo, escrever palavras que pedem passagem, beber o chá, contar as folhas no fundo da xícara, desprezar sortilégios, rir da própria ingenuidade, ignorar o poder, ser livre para pensar, dançar rumba, vestir minha roupa de bailarina, subverter o pas-de-deux, transgredir as horas, esquecer-me de todos os poemas escritos e de todos os que ainda vou escrever.
Hoje eu quero comer morangos, tingir a língua, piscar o olho para um ser imaginário, molhar a boca com o vinho apropriado aos dias frios, lembrar que vi abelhas enlouquecidas, divagar sem me prender ao pensamento, repassar álbuns de retratos, me ver criança, ouvir pela décima vez a mesma música, andar descalça, fazer apenas uma oração, conjurar os anjos, brincar com as salamandras das chamas das velas, colocar as mãos sobre o fogo, viver a fração do tempo como um beija-flor na proeza do vôo. Nesta noite, quero me dedicar ao extremo ato das coisas simples, uma outra espécie de transbordamento, a devoção a cada hora vivida, o ritual dos tolos, o ritual dos sábios. Hoje parei o futuro.
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