CÉLIA MUSILLI - Temas para crônicas
Temas para crônicas não faltam, é verdade que acontecem alguns "brancos" de manhã, mas um olhar ao redor modifica tudo. Já escrevi sobre casais de namorados se beijando nas ruas, uma Hollywood particular que leva filmes pela cidade. Já escrevi sobre idosos encontrados mortos em seus apartamentos depois de dias, mostrando a condição cada vez mais terrível do isolamento, como gente que morre no metrô e ninguém percebe, até que termina a viagem e o cara não desce na estação.
Há temas alegres e tristes, temas de escrever para os pássaros e outros para autoridades duras. Há temas políticos, de amor e religião. Dia desses, atravessando a praça de uma igreja, vi um pombo pousar na cabeça de um santo, a escultura modificada por um chapéu emplumado lembrava a descida do Espírito Santo, miúdo e pretinho, ao meio-dia em ponto. Fotografei e o divino partiu, dizem os profetas que volta na próxima semana. Pelo sim, pelo não, como não confio cem por cento em profecias, trato logo de registrar tudo que encontro em palavras, às vezes uma legenda é suficiente para que a poesia não morra. A crônica é um registro, um modo de criar imagens também por palavras. Não fosse isso, o mar de Copacabana não teria as cores de Rubem Braga, nem veríamos as colagens de Fabrício Carpinejar num álbum que se folheia pela língua.
Gosto de textos imagéticos, essa ilusão pictórica de dar à realidade um contorno mágico, cumprindo uma sina surrealista que eleva a vida a uma condição fantástica, porque tudo está aí ao nosso dispor, ao alcance dos olhos, para fotografias muito particulares.
Gosto de criar atritos de palavras: céu esvaziado, flores de vidro, precipício de confetes, pele gritante, brinquedos quebrados, lua de sílex. Imagens que transformam a realidade. Mas é da vida mesmo que se extraí toda matéria-prima. Não há outra fonte, se não este passatempo de ver o mundo com outros olhos.
Nas crônicas já registrei momentos de luxo como aquele em que um amigo poeta abaixou-se num canteiro para ressurgir com uma margarida, era um ato que dispensava palavras, mas só as palavras e imagens nos dão este milagre da permanência, de lembrar o gesto a cada vez que se lê o texto.
Um dos meus desejos é reunir em livro umas cinquenta crônicas escolhidas, elas estão dispersas no jornal há quase uma década. Formariam um roteiro de aventuras cotidianas, um acervo de fatos delicados e outros nem tanto. Porque também enraiveço e embruteço quando troco a maravilha pela realidade crua, esta mesma que enfileira vítimas, acidentes e brutalidades num mundo que não é de todo mal nem bom. É apenas o mundo. Contento-me em registrá-lo como se tivesse uma câmera nos olhos capaz de captar imagens verbais, às vezes de ternura, às vezes de revolta. Oscilo entre as pedras e pétalas como qualquer um e não sou dona da verdade, apenas tenho pontos de vista porque me envolvo com a vida, não sei ser neutra nem me fingir de morta.
No fim, há um saldo de amizades e pessoas que torcem o nariz, mas já disseram que a unanimidade é burra e me contento em ter minhas próprias respostas sem tentar convencer ninguém. A exemplo do vento, quero apenas passar mexendo com as estruturas, removendo obstáculos ou reunindo folhas. Escrever é isso, tão natural quando alimentar-se de flores e de cinzas. Os segundos não voltam, a gente deve pegá-los no colo um bebê enquanto é tempo e com toda delicadeza colocar num lugar seguro onde possamos visitá-los quando sentimos saudades. Escrever é isso, colocar alguns momentos em lugar seguro, desses que a gente puxa como um peixe quando a palavra morde a isca e ondula o rabo prateado que só aparece quando retirado de um lago onde convivem a sintaxe e a semântica, milagre da multiplicação da linguagem.
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