Não sou pessimista. Acho que nos últimos 50 anos o mundo passou por uma revolução e avançou em tantas coisas, ganhou sentidos de liberdade, deu voz a debates sobre etnias, políticas, sexo, drogas, culturas, com perdas e ganhos, mas sobretudo, mudou. Logo ali, no corredor do tempo, no prazo exíguo que separa uma geração da outra, ainda dá para ouvir o uivo de Ginsberg sem tédio, viajar com Kerouac "on the road", ouvir a poesia que McLure fez para os leões antecipando em décadas a importância de conviver com outras espécies sem machucá-las, falando "grooow".
Rio com eles, pensando que em vez de cinco, devemos ter mesmo onze sentidos que nem usamos e torço para que a percepção se amplie para muito além das portas que fechamos quando abandonamos as utopias.
Como ia dizendo, não faço parte da turma para quem tudo está perdido e o mundo não gira. Na geração dos meus filhos, vejo mudanças acumuladas como camadas antropológicas e eles acreditam no amor, apostam na liberdade,torcem por um mundo melhor com a mesma febre com que tocam guitarra, embalados por rock, alegrias e blues.
Os garotos da geração Y, decerto nasceram plugados de outras maneiras. Assistem a vida na tela do tablet, mas sabem que a realidade pulsa além dos bytes e têm nos seus nervos e ossos, sedimentadas, as causas ganhas por gerações que os antecederam. Fazem amor com as namoradas, não têm preconceitos de sexo ou cor, exercem uma autonomia de pensamento que os fazem ler filosofia e um bocado de histórias em quadrinhos, passeiam sem grana no bolso e muitos, muitos mesmo, não dão às marcas a menor importância, embora vivam num mundo de consumo elevado.
Está certo que nem tudo são flores, que há nas redes sociais um acúmulo de vaidades e de excessivo valor às aparências, com meninas que querem ter seios de pop star e garotos que sonham com o poder do Pai, na sociedade de classes que ainda não derrubou barreiras como a de medir o homem por sua conta bancária.
Mas os vejo mais livres, sintonizados com políticas ambientais com a naturalidade de quem nasceu sabendo qual importância da vida do mar e da vida na terra, inconformados com o acúmulo de lixo no planeta, sabedores do quanto de responsabilidade temos sobre o presente e o futuro.
Então, penso que as utopias estão cruzadas numa síntese que talvez dispense os grandes movimentos, mas elas estão por aí, infiltradas em comportamentos que reverberam na grande aldeia onde índios guaranis e os manifestantes de Wall Street somam vozes, quebrando paradigmas sem cansaço.
Assim, percebo que xamãs modernos devem ainda proteger este velho mundo da ideia de que "tudo está perdido", porque há achados incríveis nestas revoluções velozes que ganham voz ao toque do mouse com a mesma esperança dos que tocaram tambor e se comunicaram, comunicaram, comunicaram mostrando que as utopias, de um jeito ou de outro, sobrevivem, com outras cores, outros códigos, outras linguagens e slogans. E você aí, conformado com seu pessimismo, tá ligado?

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