É primavera mas veio um frio de junho. Novembro não é mês de balões nem de fogueiras. Casacos estavam guardados como fotografias que a gente resgata em dias inusitados como este 3 de novembro, a 17 graus. Visto agasalhos e por baixo uma camiseta fina, destas de esperar verão, verde como a esperança de que a temperatura suba e o sol me traga o conforto dos dias quentes quando pulo da cama sem dificuldades.
A primavera com cara de inverno me deixa mais lenta, quero edredons, café bem quente, meias nos pés e arrisco um chapéu destes que chamam a atenção, porque foram destituídos dos figurinos e das cabeças. Até por isso, gosto deles, para restituir a elegância em tempos obtusos e de frieza nas relações. O homem anda tão ocupado que nem comenta o tempo, embora o sinta nas pregas da alma, estas que a gente alisa como quem passa camisas.
O frio me deixa introspectiva e não fosse o chapéu, usado como uma parabólica, não emitiria sinais e perderia a graça de sair por aí, embora a luz da primavera, com ares de inverno, seja ainda um convite a passeios por um destes parques que parecem sonho, por onde a gente anda à caça de sentidos.
Com ou sem frio, a luz filtrada pelas árvores comunica que há vida entre o céu e a terra. Passarinhos falam a língua de cantos, o vento desafia os vãos, levanta saias, infla a vontade de sair correndo, nunca se sabe se do parque ou desta estação. 17 graus em plena primavera e um desejo de sorvete e praia, vestidos de alça, sandálias e chopp gelado.
Não somos senhores do tempo, nos limitamos a checar temperaturas, ouvir previsões, consultar as nuvens para saber se carregamos o guarda-chuva. O tempo é coisa que o homem não domina, aceita. Ele nos dá a dimensão de nosso curto comando que não controla o frio nem o calor, quando muito os acolhemos na pele vulnerável à natureza e aos seus humores. Experimento ficar assim, sem comandos, a não ser o de por meias nos pés, chapéus na cabeça e um cachecol a enrolar emoções que nem compreendo nesta estação inesperada onde sou passageira. Me aqueço com os pensamentos como quem faz sopas, fervendo letras, sintaxes e palavras.

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