CÉLIA MUSILLI - Sonhar com elefante
Sempre volto ao conto ''tlon, uqbar, orbis tertius'', de Jorge Luis Borges, naquele ponto em que ele fala de uma data mágica: ''Numa noite do Islã, que se chama A Noite das Noites, se abrem de par em par as portas secretas do céu e se torna mais doce a água nos cântaros.''
Fico imaginando a abóbada celeste se abrindo para que possamos espiar seus mistérios. Me ocorre que o sono também nos leva a outras paragens, paisagens, que podem ser boas ou terríveis, mas igualmente mágicas por nos oferecer o insólito, o impensável, o incrível, o maravilhoso. Divido o sono em séries e territórios. Tenho a série Campos Azuis, dos sonhos bons, e a série Campos Cinzentos, dedicada aos maus. De uns tempos para cá, dei de anotar os sonhos segundo esta divisão e me agrada saber que tenho mais campos azuis do que cinzas.
Da última vez em que estive no Campo Azul era quase dia, já havia atravessado a noite e as horas imponderáveis da madrugada das quais pouco sabemos em repouso. Só sei que as atravessamos todos os dias, durante 7, 8, 9 horas, naquele intervalo em que tudo se desliga, somos um corpo talvez abandonado pelo espírito e conectado delicadamente a ele apenas por um toque de mouse ou um fio, segundo algumas crenças. A ideia de uma ligação sutil entre o corpo e o espírito, enquanto penetramos nos domínios do inconsciente tem uma beleza poética, independentemente dos dogmas ou crenças. Fico, portanto, com esta imagem que me torna uma viajante leve, com bilhete de ida e volta à realidade a partir de um fio que imagino de ouro, embora a prata seja considerada o metal deste estágio, o estágio da ligação sutil do corpo e da alma.
Mas vamos aos sonhos. Anteontem eu andava pelo Campo Azul numa festa cheia de cores, havia ainda o verde, o vermelho, o amarelo, paleta primária da minha mente. Tudo era vibrante e se transformou em cenário de festival indiano - imaginem - quando um elefante enfeitado surgiu no sonho. Veio plácido e pesado, lento e muito calmo. Não estava vestido, tinha apenas pinturas na pele acinzentada. Foi inusitado, mesmo num sonho, me deparar com um paquiderme. Nem sequer havia pensado em animais, mas acordei contente por me lembrar que elefantes são sinais de bom augúrio. Para confirmar o anúncio de que a boa sorte deve estar me rondando, apelei para um Livro de Sonhos e encontrei o significado que confirmava minha impressão.
''Sonhar com elefante: Geralmente ele está associado à sorte em vários ramos da vida, seja financeiro ou até amoroso. Na Índia, por exemplo, o deus mais importante, Ganesha, é representado com a cabeça de um elefante. Para os hindus, ele representa a pura sabedoria, intelecto, traz coisas boas e sorte aos seus seguidores. Isso demonstra o quão positiva é a imagem de um elegante.''
Para mim este augúrio basta e reconheço a força do sonho desde que passei o resto da semana pensando no que de bom irá me acontecer, qual a surpresa, a novidade, quais rumos irão mudar já que vi um elefante.
Se os sonhos têm um sentido ao nos destampar a abóboda do inconsciente é este, de nos trazerem esperança. Por mais tola que pareça a situação, os sonhos que temos dormindo interferem nos sonhos que temos acordados e vice-versa.
Assim, penso que o fio de ouro que me liga ao meu avesso, ao lado B que vejo em sonhos, é um bilhete de ida e volta ao que de mais profundo existe no meu desejo. Aí, talvez já não precise de um Livro de Sonhos, mas de um canal com a Psicanálise que, nos seus fundamentos, levou os sonhos em conta. Pudera, esta fresta onírica é a passagem para nossas ''noites mágicas'' quando as portas do céu se abrem como no conto de Borges.
O engraçado é que nunca sabemos se desta porta vão sair estrelas ou elefantes. O sonho é sempre uma situação insólita que nos deixa dúvidas e pistas. Eu, por exemplo acho que meu elefante veio da Índia, só não sei se volta.
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