No início do século 20, o crítico Walter Benjamin fez uma análise do individualismo antevendo as crises do homem contemporâneo. Num ensaio, ele criou o conceito do "homem-estojo" que vem se confirmando ao longo do tempo. O "homem-estojo" se resguarda, se fecha, evita contato com o outro, se basta. É o ultra individualista que perdeu o sentido de coletividade, nenhuma causa lhe toca, fechou o corpo paras as humanidades. A referência está numa tese da carioca Mariana Patrício Fernandes sobre literatura e doenças psíquicas, na qual ela faz uma ponte do tema com a Síndrome do Pânico, que geralmente acomete pessoas em local público, com receio do coletivo, com medo de deixar o "estojo". Dá para imaginar que estas síndromes são resultado do individualismo exacerbado, a perda do sentido de coletividade que hoje só cultivamos em rede, de modo virtual, às vezes raso, mantendo-se na superfície, mas que ainda é melhor do que o individualismo total.
Na contramão disso, há também um excesso de exposição que transforma o privado em público, desfazendo-se as individualidades e as interioridades. Se antes as pessoas escreviam diários íntimos para falar das alegrias e agruras do cotidiano, hoje a internet propicia uma espécie de reality show em que cada um se torna estrela de sua própria vida para efeitos midiáticos. Da exposição pública ao fechamento claustrofóbico há um divisor de águas que impele uns a mostrarem tudo – num crescente narcisismo - enquanto outros se fecham em inseguranças, talvez por não aguentar a competitividade.
Existe a solidão criativa e existe o isolamento doentio, são diferentes. Mas uma coisa é fato: as pessoas andam desenvolvendo sintomas esquisitos e atrás vem o sistema psiquiátrico, a indústria farmacêutica vendendo e medicando. Então, as doenças psíquicas podem ser vistas também como sintomas dos tempos? Um rol delas para cada momento da história? Ou nada a ver? Por exemplo, depois da liberação sexual fala-se bem menos ou nem se ouve falar em histeria feminina. Então, as doenças são reais, fatos culturais ou só lenda urbana?
A questão, antes restrita aos consultórios psicanalíticos, cada vez mais é tema de conversas que chamam a atenção no universo virtual. Basta mencionar expressões como "depressão", "pânico" ou "melancolia" para um número variado de pessoas aparecer para dar depoimentos de seus próprios casos, muitas vezes até com a intenção de ajudar quem sofre do mesmo problema. Tratamentos, medicamentos, arte, esporte e até religião são citados como forma de se livrar de sintomas que assombram pessoas das mais diferentes classes sociais e sem limites de idade .
O assunto em debate tem o mérito de sintonizar experiências e conectar pessoas que se identificam, deixando de sentirem-se como ETs portadores de doenças cujas origens são variadas ou mesmo obscuras. Nas conversas, de tanto misturarem tratamentos, muitos não conseguem afirmar como se livraram do problema, o alívio por se curar já é suficiente.
O fato é que o individualismo que fez Walter Benjamin pensar no "homem-estojo", guardado em caixa, ancorado num universo cada vez mais restrito, tem tudo a ver com um modo de vida que foi evoluindo a ponto das pessoas escolherem caminhos solitários, não só sob o ponto de vista das relações pessoais – com uniões cada vez menos estáveis – mas também preferindo isolamento nas relações de trabalho, onde cada um fica no seu departamento, ou na vida social, onde cada qual fica com orgulho "no seu quadrado", perdendo também o sentido dos encontros imprevisíveis.
Difícil saber para onde caminha esta tendência, mas sem dúvida é uma coisa a se debater, ainda que de modo virtual, para ver se conseguimos sair do estojo e do conforto de nossas crenças. Para isso preciso é perder o medo da não aceitação, do julgamento, da divergência de ideias e até do confronto com o outro com quem podemos fazer um jogo de espelhos para nos conheceremos melhor.
Sempre que posso, lanço por aí sinais de fumaça. Comunicar e trocar ainda é uma forma de não adoecer. Mais, acredito que criar salva. Porque a criação tem um endereço: o humano que é sempre continente, nunca uma ilha.

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