CÉLIA MUSILLI - Sobre o amor e a arte
O buraco da falta de amor é sempre equivalente ao abismo do excesso, das pessoas que amam demais. Há modos de regular o que as emoções nos provocam, o que se justifica pelo cuidado de não se autodestruir ou destruir os outros. Podemos ser abalados pelas forças da paixão e tomar atitudes impensadas, mas me flagro questionando se vale a pena viver totalmente auto-regulado, praticando uma ''economia afetiva'', sem nenhum transbordamento.
O que seria da arte e até do amor sem esta gente ''excessiva''? O que seria da poesia sem Florbela, Hilda e Rilke? O fogo da paixão queima na proporção do fogo da criação. Muitas vezes, quando esfomeados de um lado, alimentamos paradoxalmente o outro, com fartura criativa. Muitos danam a escrever, pintar, dançar para se livrar da bendita maldição que atende pelo nome de amor.
Quantos poemas não foram forjados na loucura. Ou alguém acredita que escrever é como fazer omeletes? Quase toda grande escrita é compulsiva ou se dá em êxtase, Piva e Whitman estão aí para demonstrar. No torvelinho surgem as coisas mais belas, uma resposta ao que nos consome na mesma intensidade e depois tem as arestas aparadas, a forma burilada num fogo mais lento, embora a sua essência seja selvagem. Talvez a arte seja à única resposta possível à perplexidade e à fúria do amor, uma forma de vislumbrar o seu inescrutável.
E deixo minha parte em poesia:
''Porque o amor, ainda que inserido na brevidade de um dia ou na eternidade dos séculos, existe para derreter nossas camadas de orgulho, de raiva e de impaciência, tocando nosso coração com a peculiaridade das coisas feitas para suavizar a crueza do mundo.
O amor é a passagem possível para um estágio de súbita delicadeza, desejos que se conjugam, verbo derramado com a generosidade do alimento farto.
Então, em caso de amor, não corrijam meus possíveis erros com exaltada fala ou com interpretações duras. Antes, reconheçam que aquilo que se vive por amor será, no fim de tudo, a única força capaz de reverter o imponderável encontro com o vazio, iluminando os dias passados com pequenos insights de felicidade.'' (Do livro ''Todas as Mulheres em Mim'', Atrito Art Editoral e Kan Editora, 2010)
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