Não há acaso que eu deixe passar batido. Na última quarta-feira, peguei na estante um livro de Fernando Pessoa. Nunca é demais revisitar Pessoa, vale mais que ir aos botecos para estar em contato com os vivos, embora o poeta tenha morrido há tanto tempo, ele ainda pulsa. O acaso me fisgou com seu anzol de prata quando abri numa página do poema "Tabacaria" na qual ele fala das mulheres. Os versos são uma prática de ourivesaria:

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"(...) Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno
- não concebo bem o quê -,
Tudo isso seja o que for, que sejas, se pode inspirar
que inspire!"

*

Na verdade, esse é um dos poucos momentos felizes do poema, marcado por uma melancolia, uma angústia aguda de existir sem saber por quê. "Tabacaria" é um olhar decepcionado para a vida, aquele que acontece quando pensamos demais, como fica demonstrado num de seus trechos mais bonitos:

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"Olha que as religiões todas não ensinam mais que a
confeitaria
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade
com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de
folha de estanho,
Deito tudo no chão, como tenho deitado a vida."

*

A profundidade desse trecho consiste em assumir-se como aquele que estraga tudo pensando demais na vida que vê da janela, do outro lado da rua, olhando a tabacaria onde sua vida passa junto com personagens do cotidiano, como um filme onde ele mesmo não cabe. Escrito em 1928, o poema encaixa-se na terceira fase de Álvaro de Campos, heterônimo de Pessoa, quando este mergulha no pessimismo. Escrito em versos livres, em estilo moderno e com português "desleixado", na opinião do próprio autor, dá a impressão de ser o poema em que a desolação impõe que se jogue tudo para o alto, mas com uma beleza tão grande que o leio torcendo para que não recupere a esperança.
"Tabacaria" serve de parâmetro para este momento do Brasil que deixa a impressão de que tudo está perdido, a única coisa que nos resta é não entregar os pontos conduzidos pela estranha crença que a gente deve simplesmente viver, sem complicar demais, sem pensar que não há empregos, nem afetos, sem pensar que a dose de entusiasmo necessária para encerrar o ano não virá como um presente, uma dádiva, mas apenas pela constatação que devemos continuar vivos, pulsando como quem se liberta das especulações e, mais que tudo, liberta-se da metafísica, essa categoria obscura que nos remete ao além quando não aguentamos mais ficar aqui, neste plano de incompreensões que tentamos capturar com palavras.
"Tabacaria" não é um poema feliz para terminar o ano, mas o acaso o trouxe como a fumaça do cigarro que faz mal, mas nos permite fazer ilações enquanto sobe como uma metáfora da vida que tem fluxo próprio. Há mais de 30 anos deixei de fumar, apesar de ter sido sempre uma fumante "social", aquela que dá baforadas num bar para pontuar a conversa. Por esses dias, voltei a dar umas tragadas. Há momentos em que tudo exige uma pausa enquanto, como Pessoa, observamos a vida mergulhados num pessimismo lógico do qual só a poesia nos salva.

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