Os parques, estas praças de esporte ao ar livre, acolhem todos os tipos: gordos e magros, jovens e velhos, esforçados e preguiçosos, distraídos e enturmados. Os magros e sarados vão na frente, ligeiros, com pressa em manter a forma, mesmo quando já estão 'na medida', sem nenhuma gordura vazando a camiseta, sem nenhuma barriga, este ponto sensível que nos faz sentir em falta com a ginástica, a corrida, a natação, o salto, o futebol, a musculação ou seja lá o que mais existe por aí para ajudar numa das obsessões modernas.
Então, lá vão os magros. Passam correndo, alguns duas ou três vezes no mesmo trajeto enquanto estou ainda na primeira volta, revezando caminhada e corrida, torcendo para que o joelho não reclame. Não sou a melhor em nenhum esporte ou atividade física. Nunca fui. Corri de bola, fui rejeitada nos times de vôlei, era mole com a raquete e dei graças a Deus na faculdade quando pude pedir dispensa de todas as modalidades, pelo menos ninguém mais me olhava torto quando perdia o saque ou via a bolinha passando como um passarinho sem bico.
Apesar disso, faço caminhadas pelos parques, aproveito a manhã ou o fim do dia, gosto de ver os patos nadando com aquela expressão de quem só usufrui da natureza. Sem pesos, sem medidas, sem metas. Não fosse humana, talvez fosse uma pata, daquelas que deslizam pelo prazer de sentir a água na barriga, o vento soprando as penas, sem fazer comparações. Os patos devem pensar: para onde corre esta gente?
Nos parques, apesar de toda doutrina dos magros, gosto de ver os gordos, eles vêm mais lentos, a barriga como um tambor sem som, alguns vestem camisetas alegres: Fat and Single (Gordo e Único) ou Do you like fat girls? (Você gosta de meninas gordas?) assim mesmo, em inglês, que é para os magros se esforçarem para ler e rir em seguida do humor dos que pesam mais. Apesar de magra, acho os gordos mais felizes, pelos menos nas caminhadas. Geralmente vão em turmas falando de cerveja, de porções de calabresa, do pastel do Mercadão, das frituras, do joelho de porco do restaurante alemão. Gordo fala de comida, não fala de regime. E apesar das cartilhas pedirem magreza, esbelteza, lá vão os gordos, com suas barrigas de tanque de guerra, guerra permanente com o peso, sem ligar muito para as vitórias.
Os gordos caminham, não correm. Atendem as prescrições médicas de se esforçarem sem romper os limites, sem estourar os tendões, sem acelerar o ritmo cardíaco. Caminham como quem passa o domingo no parque, com cara de pato, sentindo o vento no rosto, sem pressa, enquanto os magros passam como bumerangues, vão e voltam, quase nunca riem, se contraem enquanto os gordos gargalham. Magro só ri quando termina o sexto quilômetro e nos encara com ironia: ''Bati meu recorde hoje!''
O gosto do lépido, o gosto do atleta é bater a si mesmo. Enquanto o gordo só bate na mesa, pedindo mais. Não, não vou fazer a apologia dos pastéis quentinhos, da Brahma Extra, da linguicinha. Pra ser sincera, sou comedida com todos estes pratos e já cobrei dieta de gente muito próxima. Mas me sensibilizo com os gordos em parques quando vão em turmas, um dando força ao outro, enquanto os magros passam sozinhos, sem muita solidariedade.
Neste domingo de parque, de Igapó apinhado de patos e pessoas, torço para que os gordos completem em paz suas caminhadas. Sem cobranças pela performance lenta, a barriga de 'tancão', os papos sobre almoço e janta, restaurante que abriu ou fechou. Sim, nada disso é saudável, in ou moderno. Papos assim não passam pelo buraco das agulhas dos spas, mas peço compreensão para os gordos. Porque este mundinho cosmético, sarado, siliconado, sem nenhuma gordura, têm gerado uma gente triste que só pensa na aparência. Umas mocinhas que gritam ahs e ohs! quando se flagram no espelho com um pneuzinho e se põem a rodar sete quilômetros por dia, sem estepe para os acidentes de percurso ou sem olhar em torno, para uma vista da natureza, para o pôr-do-sol que é bonito todo dia, embora redondo e lento.
Sou magra, mas hoje deixo minha simpatia aos gordos. Simpatia, na acepção da palavra, a todos os que vestem GG e têm que arcar com as consequências de estar fora dos padrões quando passam, como se fossem um projeto desacreditado de magreza. O que mais entristece o gordo é o 'olho gordo', disso não tenho dúvida. Então, botem figa no pescoço pra correr da censura dos magros.
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