O título é quase inacreditável: ''Gato tentando trazer o amigo de volta à vida.'' À primeira vista, dá aquela impressão de ser uma montagem feita para emocionar. Mas o vídeo traz imagens reais, está no Youtube (http://www.youtube.com/watch?v=vAkm_J-kRmY) e ficou conhecido entre os que adoram animais. Mais ainda, entre os que se sensibilizam com as manifestações de afeto dos bichos que, às vezes, parecem humanos ou mesmo superam nossas enfraquecidas noções de amor.
O que se passa é o seguinte: um gato morre atropelado e outro fica ao seu lado, movendo as patas sobre o corpo inerte na expectativa de reanimá-lo, como se acreditasse piamente na lenda das sete vidas. Depois de várias tentativas, sem sucesso, deita-se ao lado do amigo como se esperasse um milagre ou, simplesmente, numa demonstração de amor até o fim. Só sai dali quando uma pessoa chega para recolher o animal morto.
Recebi o vídeo e o repassei aos amigos. Lágrimas são quase inevitáveis, assistir a um filme destes leva-nos à certeza de que os animais sentem, tanto ou mais que nós, a perda de um ser querido, um amigo do bairro, alguém com quem partilhamos o cotidiano, não importa se somos bichos ou gente. Ou até mesmo pode tratar-se, simplesmente, de sentir a perda de um outro ser da mesma espécie.
Histórias de animais que demonstram afeto existem aos montes: cães que seguem os donos por centenas de quilômetros quando são deixados para trás, gatos que voltam à antiga casa, mesmo quando foram enxotados, pássaros que se doam em bicadas e carícias sinceras.
Num mundo em que a indiferença predomina, no qual a cena de um atropelamento pode passar como coisa banal ou, no máximo, provocar a curiosidade dos que se interessam pelo ''espetáculo'' do acidente, se deparar com os sentimentos de um gato, é uma prova de que uma estranha força imanta todos os seres os vivos.
Sou adepta da teoria de que o mundo existe por amor. Porque só por amor a natureza se encarrega de reproduzir, numa teimosia explícita, o milagre da vida. Um milagre do qual muitas vezes não tomamos conhecimento, ocupados com questões práticas que esfriam o cotidiano, deixando o calor, dito humano, fora das nossas vidas.
Aí chegam os animais para demonstrar que os espaços de ternura existem além das nossas medidas mesquinhas que colocam como prioridade outros valores: competir para enriquecer, brilhar para aparecer, esfriar para não sentir, construir uma imagem de força que não admite a fraqueza necessária para se emocionar com imagens tão singelas quanto as de um bicho tentando ressuscitar alguém da mesma espécie.
Os animais, muito mais humildes, apenas reconhecem na vida seu valor soberano: uma expressão de amor. De certa forma, eles sabem honrar suas despedidas mais que nós que, diante de um atropelamento, muitas vezes bancamos os indiferentes ou ocupados demais para abrir uma brecha de sentimento no cotidiano.
O vídeo do ''gato tentando fazer o amigo voltar à vida'' me deu vontade de também me voltar para a existência enquanto é tempo, observando lições mais delicadas do que aquelas que aprendemos nos noticiários.
Mergulhados na sociedade do espetáculo nossa tendência é acreditar que tudo não passa de montagem. Mas não, o amor existe e se manifesta na cena inusitada de um gato amassando freneticamente o corpo de outro gato, como alguém que conhece técnicas intuitivas de ressuscitamento, porque o afeto, em última instância, é vida, para quem ainda não perdeu a esperança.
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