CELIA MUSILLI - Serviços para trouxas
Não sei vocês já tiveram a mesma sensação, mas ultimamente me sinto trouxa no papel de consumidora ou cliente. É que o conceito ''faça você mesmo'', que se aplica ao comércio, quer passar a idéia de que isto significa mais rapidez e autonomia, entre outras facilidades propiciadas pelos auto-serviços. Porém, na prática, me sinto uma boba quando pago taxas bancárias e, na hora de pegar um talão de cheques, fico na fila para acessar a máquina, coloco a senha, insiro o número de cheques que desejo, destaco as folhas, pego a capinha do talão e, quase sempre, descubro que não existe grampeador ou que o dito cujo não tem grampos quando, enfim, vou finalizar minha tarefa de cliente feliz.
Para me dar bem no final, já tenho até alguns truques, como sair com o talão cheio de folhas destacadas e procurar uma farmácia onde um balconista simpático já me conhece e, gentilmente, me empresta o grampeador que o banco me sonega. Uma vez, revoltada com o descaso, reclamei para uma funcionária e, para minha surpresa, em vez de tomar providências, ela despejou reclamações, tentando explicar por que o grampeador não tem grampos. ''As crianças brincam com ele e o descarregam'' - me disse, antes de argumentar que ''já enfiaram até palitos de sorvete'' no equipamento. Da mesma forma, há sempre uma justificativa para as canetas sem tinta, que ficam penduradas nos balcões como um cachorro morto na coleira.
Ora, que se danem os bancos, pensei muitas vezes, antes de pegar uma fila quilométrica e ficar sonhando com os bons tempos em que meu avô guardava o dinheiro sob o colchão. Hábito em desuso que estou querendo retomar porque, afinal, os ladrões de hoje nem procuram dinheiro neste tipo de esconderijo.
Como consumidora, não bastassem os bancos, também já passei sufoco em outros estabelecimentos. No último fim de semana fui a São Paulo e me hospedei num hotel de fácil acesso para prestar um concurso na manhã de domingo. Imaginei que por pertencer a uma rede conhecida, o estabelecimento me daria atendimento compatível com a imagem que vende. Triste ilusão. Algumas redes hoteleiras aderiram ao ''faça você mesmo'', máxima americana para dar aos trouxas a ilusão de praticidade. Então, você chega aos hotéis e abastece sozinho o seu frigobar, se quiser água ou uma cerveja geladinha. Os funcionários que passavam de manhã , abastecendo geladeiras, hoje são uma espécie em extinção, como o mico-leão-dourado ou as borboletas da Patagônia.
Assim, depois de instalar os hóspedes, eles exploram seus serviços e, após uma viagem cansativa, a gente chega no quarto e descobre que não tem água para beber. Com uma sede do deserto e no meio da síndrome da geladeira vazia, você liga para a recepção pedindo uma providência e eles informam que é preciso sair do quarto, tomar o elevador no 12º andar, ir ao bar e, literalmente pedindo água, carregar as garrafas para o quarto.
Querem mais? No mesmo hotel, pedi para passar um vestido e a gentil recepcionista me informou que o estabelecimento não dispõe de passadeiras - é, acabaram também com estes empregos - e que, se eu quisesse alisar minha roupa, eles dispunham de uma salinha com ferro de passar. Assim, descobri que teria um fim de semana pagando diárias para passar roupas. Não demora muito, eles vão demitir as arrumadeiras - atendendo à máxima de quadros cada vez mais enxutos -, e oferecer, com sorrisos, uma vassoura para o hóspede limpar seu próprio quarto. E claro que também pagaremos taxas por isso. Não é mesmo incrível a lógica dos auto-serviços para clientes trouxas?
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