CÉLIA MUSILLI - Sem tutelas, por favor
Tivemos no país momentos brutos e críticos, nos quais um movimento popular forte poderia irromper por excesso de injustiça, falta de perspectiva, corrupção. Mas parece que só agora o crocodilo submerso da força popular emergiu como um bicho disposto a lutar, inicialmente, por 20 centavos a menos na passagem do transporte público. Estes centavos deflagraram quase uma revolução engordando nossos cofrinhos de esperanças.
A gente nunca sabe em que ponto do inconsciente coletivo rola o desejo que se liga em circuitos para formar um movimento forte em cadeia, é quase um mistério. Políticos profissionais com suas bíblias e cartilhas ficaram estupefatos, militantes acostumados às manifestações de sempre tentaram tirar uma casquinha e foram convidados a baixar suas bandeiras nas ruas. Sociólogos traçaram as mais diferentes hipóteses e rotas para o que aconteceria, muitos sem sucesso. Uma grande parte da população tentou ainda polarizar o que ocorreu dentro do velho esquema: PT X PSDB. Erraram o alvo e as previsões.
Mal diminuíram os protestos - quando os governos estaduais e municipais reduziram as tarifas do transporte público - já havia pessoas tentando desqualificar o movimento, enxergando erros que poderiam ter sido evitados, assim e assado. Falar é fácil, quero ver é construir uma manifestação tão forte, suprapartidária, contra o Estado e muitas vezes sob violência policial, sem declinar da reivindicação inicial, sem ceder à tentação de receber apoio de políticos influentes, mantendo e engrossando o discurso para abrir ainda possibilidades de manter a mobilização por outras causas que necessitam de apoio.
A turma da desqualificação do movimento diz entredentes que "aquilo foi feito por jovens de classe média". E daí? Sinceramente, vi jovens de todas as classes misturados nas ruas, mas se a classe média compareceu maciçamente não vejo problema algum. Não era sem tempo, ela é o colchão que absorve todos os impactos. No mínimo, a conquista de 20 centavos a menos irá beneficiar quem quer que use transporte público, independentemente de classe social.
Os embolorados, como Arnaldo Jabor, tentaram de cara desqualificar os manifestantes classificando-os como "meninos mimados que não precisam de ônibus." Ledo engano, há muitos jovens de classe média usando ônibus e metrô em São Paulo e qualquer cidade do país, gente que estuda e trabalha cruzando a cidade. Jabor não os vê porque não anda de ônibus e deveria saber que antipatia gratuita tem limite.
Vamos parar de fabricar preconceitos, o mundo está cheio deles. É só olhar em volta e ver o pastor Feliciano e sua turma falando em "cura gay". De pessoas de mentalidade tosca não precisamos mais, precisamos de pessoas que lutem por direitos que contemplem a diversidade. Classes A,B,C ou D são todos brasileiros e em se tratando de transporte de massa não acho que uns serão mais privilegiados que outros, o preço da passagem é igual para todos.
Parem também de criticar "a falta de rumos" do movimento, façam uma pausa para reflexão em vez de tirar conclusões apressadas. O que incomodou foi que muitos quiseram tirar uma lasquinha e não conseguiram. O movimento se manteve suprapartidário. O povo definitivamente se cansou de discursos esvaziados e políticos profissionais. Os lençóis brancos estendidos nas ruas e janelas de São Paulo não só simbolizaram a paz, mas uma bandeira em branco que dispensou as siglas. Nela podemos inscrever as mais diferentes reivindicações. É um caminho aberto para o livre-arbítrio, façam suas escolhas ou, pelo menos, não critiquem quem as fez. Faltavam 20 centavos para o cálice (ou cale-se) se encher. Enfim, transbordou.
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