Célia Musilli - Sem contar os anos
Aniversário é dia de festa e de reflexão, ainda não consegui me comportar como um pássaro quando completo anos, mas quero cada vez mais libertar-me das datas e das convenções. Há sinais de mudança. Se tivesse que escolher um presente a esta altura da vida, seria diminuir o excesso de consciência inerente a todo ser que nasce e cresce neste mundo sob os auspícios de quem sabe.
Registramos cada aniversário de vida ou morte, não temos a liberdade dos animais que ignoram certidões e RGs. Tampouco a liberdade das plantas que se contentam em crescer com a luz e só suspeitam dos ciclos pelas nervuras enfolhadas que recebem mais ou menos sol, sem saber do fim.
Aniversário é a consciência da passagem do tempo, é quando contamos nos dedos, de trás para a frente, os dias completados sem saber os que faltam. Admiro quem faz do aniversário uma alvorada, também me sinto diferente, mas meu desejo é criar asas. Já não me contento com glacês e as velas que iluminam minutos. Estou cada vez mais interessada nos sopros, na capacidade de compreender o efêmero me apagando quando bem entendo para renascer de novo. Complicado? Não, apenas a saudade de ser musgo ou pedra, saudade do princípio e do fim, dos tempos misturados como deve ser mesmo o tempo tocado pela metafísica.
A passagem dos anos faz do homem um prisioneiro cíclico da vida. Há tempo de nascer e tempo de morrer, dizem os que abrem a boca da sabedoria pontuada por um conformismo profundo. Sinto maior prazer quando vejo moços sábios e velhos pueris, quero ter a liberdade de ser uma velha louca, tomada pela liberdade de embaralhar ontem e amanhã. Não estou preocupada com quantos dias me restam. Num certo sentido desafiei a morte perdendo o medo, por isso não conto mais o tempo.
No mais, restam as fantasias dos balões que voaram, das caixas de presentes, alguns inesquecíveis como um cachorrinho de pelúcia e a boneca que depois, de forma inadvertida, perdeu os olhos, mostrando-me pela primeira vez a fragilidade das coisas. Resta saber quantas bonecas ainda virão porque tudo o que eu disse não é porque perdi a esperança, é apenas o excesso de quem ainda não consegue comemorar aniversários como os pássaros, mas quer chegar lá, fazendo da vida um voo sem prazos.
Talvez no ano que vem eu nem toque no assunto, guarde para mim as emoções que pontuam um desejo de liberdade cada vez maior, trocando as folhas do calendário pelo vento da vida que nos faz flutuar como uma embarcação que deve chegar a um porto secreto, nada é seguro. Cada um deixa por aqui seus registros e assombros, eu deixo palavras.
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