CÉLIA MUSILLI - Sem concordância
Na noite em que li Cortázar vi pessoas que ele embaralha como cartas: ''eu viram subir a lua'' ou ''tu mulher loura eram as nuvens que continuam correndo diante de meus teus seus nossos vossos rostos''. Fiquei pensando nas vezes em que meu nosso vosso olhar se encontraram. O céu escuro, uma luz opalina, uma estrela como referência daquilo que fez sentido e depois se desmanchou como um meteoro. Erráticos como nuvens, nossos olhos se dispersaram num ponto, num vago ponto, onde não foi possível segurar cílios, pálpebras e pupilas alinhadas. Ah! Meus afetos estrábicos.
Seus olhos foram para a direita, os meus para a esquerda, como uma destas gravuras em que os personagens se deslocam para pólos diferentes. Eu tu nós vós tomaram caminhos opostos como um peixe pulando do aquário enquanto o outro fica. Reunir lembranças é então a última tarefa árdua e cheia de escamas, melindres de peixe dourado e mulher sereia, uma vontade de dormir sob uma pedra onde a memória desaparece como um monstro marinho. A solidão será sempre abissal.
Fico ali bem quieta com meu par de olhos sem compartilhamentos, embora seu silêncio seja ainda uma presença e bata à minha porta para chegar, talvez, um ano atrasada. Um, dois, três dias, meses inteiros. Quanto tempo levará a dissipação total dos olhares que se perderam num ponto morto? Nossos olhares ainda se encontrarão por aí quando virmos a lua? Ou vamos guardar a saudade como um guarda-chuva sem uso?
Chego de um conto de Cortázar como quem abre a porta e não tem para quem contar que ''tu eram as nuvens que continuam correndo diante de meus teus seus nossos vossos rostos''. Imaginando os múltiplos pronomes desembarco numa transversal do tempo com meus eus todos sozinhos. Teus seus vossos pronomes foram engolidos pela Via Láctea numa linguagem sem concordância.
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