Celia Musilli - Selfie moderno é remoto
Rembrandt deixou centenas de autorretratos e Frida Khalo afirmou: "minha obra é biográfica," referindo-se aos quadros em que retratou-se em diferentes fases da vida, em estágios de alegria ou dor. Com esta visão da História da Arte, percebe-se que a paixão pela autoimagem não é um fenômeno contemporâneo e perde sentido a crítica demasiada ao selfie, fotografia que as pessoas fazem de si mesmas graças ao advento dos celulares e câmeras digitais que proporcionam um universo de possibilidades, permitindo que a gente escolha até "a cara do dia". A ordem é: "faça você mesmo, o instante te pertence"
Vejo o selfie como registro momentâneo, a fusão da autoestima com a dose afirmativa de mostrar-se em poses caprichadas ou nem tanto. Alguns talvez exagerem, nem todo mundo quer saber se nasceu um furúnculo na sua coxa ou em lugar mais íntimo. Mas não vejo motivos para a crítica feroz que vem cercando o assunto, sem que as pessoas, apenas por isso, desistam do hábito de se auto fotografar porque, no mínimo, é divertido.
J.R. Duran, fotógrafo consagrado, investiu pesado contra o selfie num artigo publicado no Estadão em 2013. Compara a mania de se auto fotografar a um "onanismo visual" e afirma: "uma legião de (...) desesperados padece da compulsão de se inserir em qualquer realidade para poder existir." Partindo de um fotógrafo que deu existência a "celebridades", às vezes momentâneas, a crítica parece exagerada. Na minha opinião, o que os mortais comuns fazem é apenas repetir o ritual de valorizar a própria imagem perante um grupo social. A imagem é a linguagem mais explorada desde o século 20 e diz mais que qualquer legenda, como se sabe. A autoimagem é uma obsessão do homem primitivo que já pendurava penas no corpo em busca de um olhar de admiração que depois foi multiplicado pela tecnologia em câmeras sensíveis, ao alcance das pessoas que reproduzem suas fotos. Uma diversão que extrapola o universo particular para a celebração coletiva de "pertencer a um grupo." Afinal, quem não acha graça em ser modelo e fotógrafo ao mesmo tempo, podendo mostrar as caras, bocas e habilidades para todo mundo?
Nos anos 60, o barato consistia em colecionar retratos de mitos em álbuns que hoje parecem anacrônicos, embora as "figurinhas" sejam retomadas nesta véspera de Copa do Mundo fazendo a alegria de crianças e adultos nostálgicos, loucos por ídolos. Ter a foto é uma aproximação simbólica com o objeto de desejo. Daí que se auto fotografar nada mais é que se transformar no seu próprio ídolo, proporcionando intimidade, deixando que outros entrem em seu mundo para te ver no quarto ou na cozinha, de lingerie ou devorando um bife. O gosto varia de acordo com as expectativas de quem se exibe, cada um sabe o que quer mostrar ou esconder. Não vejo graça em me mostrar comendo rúcula, mas me divirto descobrindo que um colar pode virar um enfeite de cabelo e fico lá me imaginando como etrusca. A fantasia é infinita e poder registrá-la é um luxo dos novos tempos. Não vejo mal algum e cada um sabe qual o seu limite.
A autoimagem traz desejos de sedução e autoestima. Na mitologia há Narciso que fez das águas o primeiro espelho, na Antiguidade Clássica há Fídias (século V, a.C) que esculpiu sua própria imagem no Partenon. Então, não vem ao caso crucificar os novos narcisos e seus smartphones, a fascinação do homem por sua própria imagem remonta a intrincadas formulações do inconsciente: todo mundo deseja saber quem é e, talvez, a tentativa seja flagrar o "eu" enquanto "outro" para exercitar a vaidade, mas também o autoconhecimento. Em algumas fotografias, minha boca torta diz mais do que todas as verdades que engoli contrariada, embora o desejo tenha sido, quase sempre, de flagrar a perfeição.





