CELIA MUSILLI - Se eu puder falar com Deus
Deus,
Sei que algumas pessoas dispensam apresentações na hora entrar no céu. Se é verdade que Seus olhos sempre acompanham nossos passos aqui na Terra, para o bem e o mal, o Senhor sabe, de longa data, quem é a Dra Zilda Arns, esta senhora que segundo seu irmão, Dom Paulo Evaristo Arns, ''teve uma morte bonita.''
Morte bonita é quando a gente morre fazendo o bem. Melhor ainda se passamos a vida a fazê-lo, sem pensar no que está sendo computado na Sua caderneta etérea, onde dizem que para cada existência há um punhado de ações.
No caso da Dra. Zilda, sobram aqui na Terra páginas e páginas com palavras como solidariedade, dedicação, amor ao próximo, zelo à infância, cuidado com a vida. Ela não foi daquelas a quem se aplicam adjetivos feios nem verbos que correm como rios nas searas das políticas públicas como corromper, roubar, desviar, descumprir. Ao contrário, seus verbos estavam sempre alinhados, até onde compreendo, com o Seu próprio Verbo.
Graças a este alinhamento, ela criou um método próprio de salvar crianças da fome, indicando alimentos baratos a famílias de baixa renda que não aguentavam mais ver seus filhos morrendo de inanição. Só este feito, Senhor, comparável à multiplicação bíblica dos pães, já valeria um céu inteirinho para ela, sempre de portas abertas.
Se a título de curiosidade, o Senhor quiser conhecer os números, posso lhe dizer que só em nosso País foram atendidos 2 milhões de brasileirinhos através da Pastoral da Criança, projeto que a Dra Zilda abraçou como quem abraça a própria vida. Veja bem Senhor, dois milhões de pessoas não é brincadeira não, é mais ou menos a população de Roma ou da Belém brasileira que é um pouco diferente daquela onde Seu Filho nasceu, mas também está cheia de crianças que são a cara do Menino Jesus.
Foi a muitas destas crianças, que padeciam de fome, que a Dra Zilda deu esperança, reinaugurando suas vidas através de um projeto cheio de solidariedade humana. Quando penso nesta expressão, vejo que nada é tão humano quanto a solidariedade. Por isto a Dra. Zilda, que era médica e tinha uma mentalidade sem fronteiras, espalhou pelo mundo suas ideias e seus ideais. Eu soube pelos jornais que a grande obra dela, a Pastoral da Criança, expandiu-se por 20 países, desconhecendo diferenças raciais para celebrar o que mais importa: o amor à espécie humana.
Aqui no Brasil, onde tudo começou no Paraná - e sob este ponto de vista só tenho a agradecer por Sua dádiva e a nossa boa sorte - a Pastoral conta hoje com 250 mil voluntários, que é um tipo de gente que trabalha pelo coração, bem diferente daqueles para quem o benefício passa sempre pelo bolso.
Estes voluntários, que aprenderam com a Dra Zilda o verbo amar, dizem que ela entendia o amor como o gesto de ''ensinar o outro a crescer.'' E neste conceito, Senhor, acho que se expressa a boa vontade humana para com o próximo que pode ser nosso vizinho ou morar em Uganda porque, no fundo, o que nos aproxima é a clareza de nos reconhecermos no outro. Se até os animais lutam pela sua espécie, por que conosco haveria de ser diferente?.
Feita minha recomendação imaginária de boas-vindas à Dra. Zilda no céu, eu ainda Te peço que a acolha com o mesmo carinho com que ela acolheu as crianças que encontrou pelo caminho, apesar de julgar desnecessário alguém interceder por ela que, aqui na Terra, intercedeu por tantas pessoas em Seu nome.
Se não for demais, peço ainda um olhar de compaixão pelo povo do Haiti, onde a Dra. Zilda teve a morte mais bonita: em missão humanitária. E isto nos consola, Senhor, embora a dor do Haiti, por todas aquelas perdas, também doa aqui.
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