CELIA MUSILLI - Se benze, Ronaldo!
Nada sei de futebol. Tenho bronca de expressões como ''as oitavas de final.'' Fico fazendo as contas e às vezes convoco um amigo fanático para me explicar direitinho o que é ''mata-mata'', para não ficar pensando em armas de fogo. Na verdade, me declaro corintiana quase por brincadeira, porque sei que a provocação estimula meus filhos são-paulinos a criarem mil e uma maneiras de me provocarem também, a cada derrota do time. Assim, de blefe em blefe, formamos duas torcidas lá em casa.
É como uma torcedora sem muita convicção que às quartas-feiras vejo as partidas que as emissoras de TV exibem. Entre um cochilo e outro, dou uma espiada nos passes do Adriano, nas diabruras do Neymar, nas jogadas do Ronaldo em quem ainda vejo um craque, embora os comentaristas atualmente exibam um prazer quase sexual em criticá-lo. Outro dia, um chegou a dizer que ''o lugar de Ronaldo na Copa deverá ser em casa, assistindo aos jogos pela televisão.'' Sinceramente, isso é ingratidão, tudo bem que não seja convocado para a Seleção, não anda mesmo na melhor forma. Mas acho um desrespeito um craque se tornar ''maldito'' depois de tantas alegrias e goleadas. Tenho a mesma sensação quando ouço alguém dizer que ''Caetano Veloso ou Chico Buarque não fazem mais nada.'' Fico pensando: ''Oras, mas estes caras ainda têm que fazer alguma coisa?'' Por mim podem passar o resto dos dias sem escrever uma linha ou fazer um gol, porque sua vida já valeu. Ao contrário de gente que nunca fez um verso, nem decidiu uma partida na hora H. Mas torcidas são mesmo ingratas, como os ex-namorados.
Apesar das minhas broncas e do tédio que me bate às quartas-feiras, na última partida entre Corinthians e Flamengo fiquei admirando não os jogadores, mas as torcidas. Debaixo da chuva torrencial que caía sobre o Rio de Janeiro, flamenguistas e corintianos ficaram nas arquibancadas como se fosse um domingo de sol. Era com fervor quase religioso que eles vestiam capas improvisadas ou permaneciam embaixo d'água, gritando para estimular os times. Nem em visita do papa há tanta fé ou tanta praga. As torcidas urravam, gritando palavras de ordem, cantavam ''jingles'', dançavam na chuva. Os flamenguistas assumiam sua ave-símbolo ostentando na arquibancada uma faixa hilária: ''Urubuzada''. Fiquei pensando: ''Mas por que o urubu e não um autêntico flamengo?''
Os corintianos não deixavam por menos, levantavam os braços numa saudação quase nacionalista para gritar: ''Timão.'' Uma pena que naquele dia o Corinthians não deslanchava, não corria, não acertava, como se tivesse com medo do deus Maracanã, território carioca por excelência.
Para mim, o espetáculo do futebol importa mais que o resultado das partidas e, mesmo sem convicção, tenho impulsos de torcedora quando vejo um lance que pode acabar num gol. Se é meu time chegando lá, sinto um frio na barriga que piora nos últimos segundos antes do desfecho. Se é o time adversário, lembro intimamente das minhas catiças e, quando o gol não sai, fico achando que meu pensamento é forte mesmo, enquanto meus filhos me lançam olhares desconfiados.
Competição é uma característica natural dos seres humanos, existe desde a concepção, quando os espermatozóides se lançam numa corrida maluca para fecundar um óvulo. Então, apesar das broncas e da completa ignorância sobre o futebol, acho infinitamente melhor a competição ser ritualizada no esporte, do que servir para as pessoas se matarem de fato por aí. Até por isso, acho uma graça ver Adriano ser chamado de imperador, assim como Pelé foi chamado de rei. É curioso que os títulos mudem de lugar, sendo colocados na cabeça dos ídolos do povo. O que não impede as torcidas de ''matarem'' seus reis a cada partida, na maior ingratidão, como fazem com Ronaldo nos dias em que os gols não saem, como aconteceu na partida contra o Flamengo. Para mim, isso só pode ter sido catiça da ''urubuzada.'' Se benze, Ronaldo!
[email protected]
ww.sensivelldesafio.zip.net





