Andei folheando Tête-à-Tête, uma biografia de Simone de Beauvoir, escrita pela inglesa Hazel Rowley. A obra traz um foto incrível: Simone aparece nua, de costas e de salto alto, numa pose sensual, flagrada pelo seu amigo Art Shay. A foto, praticamente inédita, só tinha sido publicada num álbum nos anos 60. E por mostrar a escritora de um modo insinuante, durante algum tempo foi considerada incompatível com o combativo símbolo feminista que ela encarnou. Mas, vista por outros ângulos, a imagem pode representar a liberdade pessoal, da qual Simone foi uma espécie de porta-voz.
Com Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir protagonizou uma das relações amorosas mais discutidas do século 20. O filósofo existencialista defendia e vivenciava a liberdade do ser sob todos os aspectos e isso incluía os relacionamentos. Os dois se conheceram em 1929, se apaixonaram e criaram um pacto de devoção ao pensamento e à palavra que substituiu as noções de casamento formal e procriação. Seus filhos, de certa forma, foram seus livros. Desta convivência nasceu o conceito de ''casamento aberto'', que ainda provoca discussões sem fim entre conservadores e modernos. Na prática, ou mesmo na teoria, a aceitação de que parceiros conjugais possam ter outras relações amorosas não é um costume aprovado ou ''bem visto''. A monogamia continua a ser considerada como a única forma aceitável de relacionamento, embora um grande número de casos extraconjugais esteja aí para comprovar que a fidelidade absoluta é uma convenção frequentemente burlada.
Quando se trata de costumes que remontam a censuras religiosas e a rígidos códigos de conduta, a flexibilização de conceitos, como o da monogamia, encontra a resistência dos defensores da tradição. Ainda que o mundo dê voltas, os amantes se multipliquem e a única verdade que possa sustentar o amor a longo prazo seja simplesmente... o amor.
Sartre diferenciava as paixões colocando num plano a ''relação essencial'', aquela devotada a um par constante. Em outro plano colocava a ''relação circunstancial'', aquela que pode nos encantar durante certo tempo. Ele sabia que ninguém estava imune às paixões e discutiu o assunto sob um ponto de vista filosófico, dando uma abertura impensada a pessoas de sua geração e das gerações seguintes.
Em pleno século 21, o tema ''fidelidade'' continua sendo um desafio e tanto. Poucos estão dispostos a encarar conscientemente outras atrações e afinidades que se sucedem como possibilidades que têm seu espaço e valor. Tudo é separado pelo ''muro da vergonha'' que coloca os casais formais acima de qualquer suspeita e é notório que nem sempre as coisas funcionam assim. Mas a ''relação aberta'' proposta por Sartre está longe de ser incorporada como um novo costume. As moças ainda se casam de branco, os príncipes chegam a cavalo e relacionamentos fora do reino são ignorados como se fossem... lenda. Mas não são. A força capaz de sustentar a fidelidade não é a convenção, é o amor. Ou uma boa dose de cumplicidade que permita aos casais falar francamente sobre qualquer assunto. Mas os tabus estão aí para censurar a verdade. Em matéria de relações amorosas, prevalece o faz de conta. E assim será por toda a infância da humanidade.

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