CÉLIA MUSILLI - Sampa
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de abril de 2013
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Tenho um olhar enviesado quando ando por São Paulo. Vejo seus problemas, mas, sobretudo, flagro seus tipos em zoom. Um olhar bem humorado é necessário na cidade que te oprime, ao mesmo tempo em que te solta para praticar o surf urbano.
Gosto de ver os personagens de São Paulo, a paisagem humana, a eficiência dos japoneses, os véus das mulheres árabes, a sobriedade dos judeus, o despojamento que toma conta de todos os gringos que calçam sandálias quando desembarcam aqui para conhecer o Brasil. Além disso, há nossa diversidade interna, a população "de casa", nordestinos e sulistas, os olhos espantados da gente da Amazônia na selva de concreto e sem perfumes.
Aqui me parece que todas as moças querem ser atrizes, encontrei muitas, fazendo compenetradas algum curso de teatro que as leve ao palco ou à televisão. Aqui, todos os sonhos são possíveis, mesmo em dias nublados e propensos à chuva, a cidade não para de nos iludir para realizar e, assim, muitos vão trabalhar com disciplina, certos de que estão na cidade onde tudo se concretiza. A capital de todas as ilusões e realizações te abraça com a facilidade de quem abriga o mundo.
Este micromundo, esta metrópole sem fronteiras, também não é só trabalho, talvez seja a cidade que tem mais botecos por metro quadrado no planeta, esquinas feita de mesinhas e cadeiras, cerveja gelada, porções de batata frita, garçons sempre a postos, tão compenetrados no que fazem quanto as moças que querem ser atrizes. São Paulo trabalha de dia para curtir a noite.
Parece que todos acreditam que têm a grande chance nas mãos, seja ela qual for, como se dependesse só de nós as coisas para as quais São Paulo nos empurra em massa, ainda que seja no empurra-empurra do transporte coletivo, onde uma multidão de nerds plana sobre o caos, com plugs nos ouvidos, celular na mão, completamente alheios ao que acontece em volta, mas nunca perdem a parada do metrô no alheamento de araque que os mantém ligados a uma estranha realidade. Acostumaram-se ao caos que, afinal, é seu habitat.
Há cumplicidade nas ruas, onde se pede e se dá informação por minuto, um vaivém que ninguém sabe aonde vai dar, talvez no futuro, esta abstração que impregna a atmosfera de São Paulo. Apesar de toda dor, toda angústia e mendicância, a cidade não desanima, tem um clima de burburinho permanente como se, a todo momento, estivesse pronta para começar novo espetáculo. Sinaliza entradas e saídas de personagens nos semáforos, palhaços que ninguém sabe de onde vêm, equilibristas, malabaristas, uma aura constante de cidade artística, apesar de tudo.
Tem pessoas que incorporam para sempre os personagens, como um performer da Augusta que veste pijamas e usa sombrinha. Sobe e desce a rua todos os dias no seu figurino impecável, bem passado como o de um ator que tem camareira à disposição. Não se imagina aquele homem de tênis e camiseta, terno e gravata, é o homem do pijama, o personagem insone que cruza as avenidas como se vivesse em outro mundo, fazendo de Sampa o seu cenário.
Também não estranhe se num calor de 30 graus cruzar com alguém que vive nos polos da Terra. Outro dia vi uma mulher assim, agasalhada, de casacão de lã cor de uva, chapéu de pele de urso num calorão de derreter asfalto. Parecia confortável, andava não como quem faz um número, não era artista, era uma pessoa que incorporou um personagem e esqueceu-se de despi-lo.
Esta diversidade, esta paisagem humana me fazem esquecer as dificuldades da metrópole, seus momentos de pânico, suas horas difíceis e já sinto afeto por esta cidade que te abraça e te cospe, no sentido de te atirar ao mundo, um grande útero que te lança a uma estranha realidade, a um portal de delícias e horrores. Por ora, só encontrei gente amiga, mesmo quando alguma crise me ronda numa esquina da Paulista com seus escândalos e encantos concretos.


