CÉLIA MUSILLI - Samba, Mangueira, samba
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de fevereiro de 2013
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Todo carnaval, espero a Mangueira, a Estação Primeira que nasceu num morro que nunca subi, mas fico feliz quando a escola desce com toda sua história. Sou Mangueira porque ela é verde e rosa, cores das flores caipiras da casa da minha avó. Sou Mangueira porque esta também é a árvore da minha infância, onde subia para cantar sambas. Dos sambas gostava mesmo quando chegava o refrão ô-ô-ô-ô, porque todo samba tem refrão e nele a gente toma fôlego, enquanto os outros cantam, e depois solta a voz de novo, fazendo solo quando sabe a letra inteirinha.
Sou Mangueira porque é a escola de Cartola, um dos meus grandes amores na música popular brasileira, um poeta que carregava tijolos, fazia massa de cimento e compunha como um deus. Cartola para mim é um exponencial do talento, daquelas pessoas ungidas pelo Espírito Santo da Arte que aparecem de cem em cem anos, como um cometa que deixa um rastro-luz.
Sou Mangueira porque é também a escola de grandes compositores, como Jamelão, Paulinho da Viola, Carlos Cachaça, Nelson Sargento, Mestre Delegado e outros com nomes tão engraçados quanto importantes.
Sou Mangueira porque a escola nasceu em 1928, foi 17 vezes campeã e, como toda estrela de primeira grandeza, foi supercampeã em 1984, ano de inauguração do Sambódromo, quando disputou o título com a Portela e firmou posição como Estação Primeira do samba.
Sou Mangueira porque a escola já homenageou Darcy Ribeiro e Chico Buarque de Holanda, dois ícones da cultura nacional que têm a minha admiração.
Sou Mangueira porque apesar das "zicas" a partir de 2007, quando a escola chegou a ser associada ao tráfico, ela teve e sempre terá Dona Zica, a grande dama do samba, que faleceu em 2003, depois de participar de muitos carnavais como um dos destaques da Velha Guarda, aquela ala em que a Mangueira esbanja tradição.
Dona Zica foi casada com Cartola, para ela, ele compôs um samba lindo, "Nós dois", feito para o casamento e que diz assim: "Está chegando o momento/ De irmos pro altar/ Nós dois/ Mas antes da cerimônia/ Devemos pensar em depois/ Terminam nossas aventuras/ Chega de tanta procura/ Nenhum de nós deve ter/ Mais alguma ilusão/ Devemos trocar ideias/ E mudarmos de ideias/ Nós dois/ E se assim procedermos/ Seremos felizes depois/ Nada mais nos interessa/ Sejamos indiferentes/ Só nós dois, apenas dois/ Eternamente".
Trata-se de uma Ave-Maria dos sambas de casamento, gênero que inventei agora e é puramente brasileiro, como a feijoada, as passistas, os ritmistas. Por falar em ritmistas, também sou Mangueira porque a escola quebrou tabus, em 2007, ao permitir mulheres na bateria pela primeira vez. Vejam só, uma bateria com mulheres só pode ganhar mais ritmo, mais gingado, mais beleza. Finalmente, sou Mangueira porque ela mantém o mesmo toque de surdo desde o seu nascimento. Sabem qual é o toque? É tum-tum-tum. Lindo e solene, bate no compasso do meu coração. E lá vem a escola, samba Mangueira, samba, que esta é sua história.


