CELIA MUSILLI - Salve, Naná
No momento em que ocorre uma das maiores crises políticas do País, Naná Vasconcelos nos deixa. Para mim isso significa, além da perda de Naná, a morte simbólica do país criativo, do país que ia dar certo e que pode se recuperar ainda, desde que a população deixe de apostar em políticos e partidos falidos para se concentrar naquilo que tem de melhor, exigindo condições para que haja vida. Essa "vida" não tem nada a ver com os índices assustadores de dengue e zika que alarmam autoridades sanitárias, enquanto ocorre uma devastação que está ficando menos visível nos noticiários, tomados pelas brigas do governo com a oposição. É como se ocorresse uma grande tragédia sem "protagonismo", sem que isso se torne o foco central de preocupação, Recife é uma das capitais mais atingidas pela doença.
Depois do Dia D de campanha nacional contra o Aedes aegypti, o assunto encolheu ao mesmo tempo em que se acendem holofotes sobre as pancadarias no Congresso e o Planalto trama um modo de salvar Lula. Enquanto isso, a vida dos brasileiros continua em risco, para isso não há salvação à vista e ninguém faz manobras que beiram ao limite do impossível, infelizmente as prioridades no momento são outras. Pesquisas para soluções definitivas como vacinas ou planos de saneamento básico em massa - que nunca saíram do papel - são projetos que só acontecerão a longo prazo.
Mas vamos ficar com Naná, para não incorrer no mesmo erro nacional de prestar atenção demais à decadência. Fiquei muito emocionada quando li que o cortejo de seu sepultamento contou com os tambores de nações de maracatu do Recife. A capital de Pernambuco sempre me emociona pelo que carrega de tradição cultural em suas ruas e praças, em sua musicalidade que Naná Vasconcelos tão bem absorveu e ampliou. Seu grande trunfo foi transformar o berimbau em instrumento erudito, sua obra é de uma importância que me faz colocá-lo ao lado de Villa-Lobos como um dos brasileiros que reinventou a musicalidade no País. Se Villa-Lobos soube ouvir os trenzinhos caipiras, Naná transformou o som das águas e das florestas em música. Sua peça "Batuque nas águas" é uma homenagem grandiosa aos rios e mares do Brasil, uma incursão sonora que transformou corredeiras em arte, em vez de promover as hidrelétricas. Da mesma forma o espetáculo interativo dele com o público quando apresentava "Chuva no Amazonas" foi uma das coisas mais lindas que já vi. Naná conduzia as vozes da plateia, ensinava que os da banda direita deviam fazem um tipo de som, os da esquerda outro, e assim chovia nos teatros. Acima de tudo, ele foi o maestro que também levou o rio Amazonas ao Festival de Jazz de Montreux e pelo mundo afora.
Sempre penso que o Brasil tem uma dívida enorme com seus artistas. Quando publiquei na rede social sobre a morte de Naná, muita gente disse que ouvia falar dele pela primeira vez. Incrível que entre essas pessoas haja muita gente de relativa cultura, mas Naná não era conhecido pelo grande público. Fico me perguntando como isso pode acontecer num momento em que todas as mídias se cruzam e quase toda produção musical está disponível na internet. Mas muitos só conheceram Naná quando ele foi embora, uma ingratidão.
Além do trabalho de compositor e intérprete, pesquisador e experimentador de sonoridades, Naná Vasconcelos deixa um legado valiosíssimo de inclusão social pela música, mais precisamente inclusão pelo toque dos tambores. Deixa no Recife um trabalho com meninos e meninas carentes que criaram outras nações, as do maracatu, as mesmas que foram na última quinta-feira prestar uma homenagem ao músico no seu sepultamento. Ele deve ter ouvido o batuque sorrindo em outras dimensões. Não tenho dúvidas que foi em paz porque construiu a paz, não há outra palavra que se aproxime de algumas de suas composições com toques, timbres e mantras que remontam a raízes africanas e sincretismos sonoros. Essa foi sua maior lição, longe do palco dos interesses, da ganância e dos conchavos. Isso sim, foi uma vida de amor pelo País.






