CELIA MUSILLI - Religião espontânea
Passei pela pia batismal no meio dos santos católicos, mais tarde, carregando vela e rosário, tomei a primeira comunhão, que seria a primeira de poucas.
Bem cedo me comunguei à minha natureza diversa, um viés de liberdade de onde os santos se escafederam, não sem antes me olharem com aqueles olhos vidrados do altar. Olhos de santos sempre me impressionaram pelo brilho, como uma pérola feita não de córnea, sangue e lágrimas. Mas de algum material sintético, enquanto os anjos de Aleijadinho me fixaram com olhos de jabuticaba. Sempre imaginei Aleijadinho sacudindo as árvores de Minas para colher aqueles olhos. De outra forma, nunca seriam tão pretos nem tão brilhantes os olhos brasileiros dos santos de casa, que também fazem milagres.
Apesar de toda esta santidade, não me fixei em religião. Antes, via nas igrejas a arte sacra, naqueles altares grandes como torres que ostentam Deus. Mas Jesus pra valer, vi bem de perto na inocência dos moleques sujos, brincando nas enxurradas da desilusão.
Como debandei do catolicismo, um dia me vi rodeada de santos sincréticos. Uns caboclos e umas rainhas d'água, salgadas e doces, que me ensinaram uns cantos, baforando em minha cara o cheiro do fumo e das ervas picadas em braseiros. Era cheiro de mata, cheiro de tempero baiano, nunca discerni muito bem e saí do banquete. No fundo, nunca me dei bem com o santo.
Procurava uma sintonia fina de canções celestiais. Manejava o dial e imaginava uns anjos emplumados, alguns empunhavam espadas, outros traziam flores e o perfume delicado era de rosas, caiadas de branco. Havia também anjos pretos e dourados que às vezes brincavam carnaval, de tão fantasiados na minha fantasia mística, da qual guardei fitas gravadas, imaginem, com vozes de anjos.
Se vocês não sabem, anjos falam como crianças, gritam, fazem algazarra. O céu não é o silêncio que se imagina. Tem festa. E de vez em quando, um querubim sai de carro para visitar a Terra. O diabo morre de inveja e vai atrás, de Porsche preto, mas não voa.
Sei que isso acontece, mas nunca encontrei um anjo cara a cara, eles brincam comigo de esconde-esconde, jogam folhas no meu decote, destampam vidros de perfume, inundam meu quarto com hologramas coloridos que penso ser sonho. Às vezes me aspergem com água benta e espantam minhas melancolias sem que eu peça. É tudo abundante e de graça, mesmo na quaresma.
Depois dos anjos, conheci os mestres que habitam lugares exóticos, do Himalaia à Hungria, e soube que na vizinhança, ali mesmo nos Andes, colunas de fogo e cristal sustentam o mundo que tem cinco pilares, um em cada continente. Também nunca encontrei com os mestres assim de supetão, como quem esbarra num amigo quando vai à padaria. Eles só aparecem em noites muito graves. Quando há maremotos ao redor da cama, furacões que giram meu coração como um peão enlouquecido. Então os mestres chegam, sentam-se ao meu lado, acendem um abajur etéreo de luz lilás - como nas melhores canções - e me dizem que nunca estive sozinha, embora tenha me apartado das religiões para abrir um viés de liberdade, onde minha crença cresce como videira espontânea, sem dogmas. E quem quiser que aceite ou recuse o Verbo.
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