CÉLIA MUSILLI - Realidade sem trilha sonora
Se a água acabar em São Paulo em novembro essa é a previsão, caso a seca continue teremos, num futuro próximo, uma metrópole parecida com a do filme Blade Runner. Sem água nas casas, sem água para mover a indústria, a cidade para. A responsabilidade é de um conjunto de irresponsabilidades que tem a ver com o governo estadual e com o governo federal. Em última instância, tem a ver com os governos e lobbies econômicos dos últimos 50 anos no Brasil, com ações francamente predatórias. O modelo de desenvolvimento agrícola para a região sudeste e centro-oeste, a exemplo de outras regiões, é anacrônico e criminoso com suas monoculturas, pastos e corte sucessivo das matas. O modelo industrial não fica atrás.
Baseado no livro de Philip K. Dick, Blade Runner, dirigido por Ridley Scott, tornou-se cult na década de 80 ao mostrar o futuro sombrio de uma parcela da humanidade cujo projeto de vida se resumiu ao consumismo exacerbado, ao excesso de poluição e, diante disso, precisa encontrar novas fronteiras de colonização. Some-se a isso a falta dágua e teremos uma aproximação com a situação de São Paulo no momento. Onde os paulistanos vão buscar água se a previsão da Sabesp se cumprir? Em Marte sabemos que não tem e, no Brasil, outras regiões já sofrem com o mesmo problema. No momento, paulistanos de classe média e alta já improvisam banhos comprando galões de água mineral, enquanto os pobres recorrem à velha lata dágua na cabeça buscando as fontes que restam nas imediações da metrópole.
Mas o buraco é ainda mais em cima ou, no caso, mais embaixo. O alerta geral vem de um dos maiores especialistas no bioma Cerrado, Altair Sales Barbosa, professor da PUC/ Goiás, que afirma com todas as letras: "O Cerrado está extinto." Isso afeta não só os estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, chega ao sudeste, a Minas Gerais e a São Paulo. A situação emergencial ainda assim não mobiliza os candidatos que disputam à presidência da República e apresentam programas quase nulos em relação ao meio ambiente.
Altair Sales Barbosa faz um inventário da situação do Cerrado, onde a vegetação original - substituída por monocultura e pastos - não brota mais, impedindo a absorção da água pelo solo. Com isso, os aquíferos não são mais irrigados e nascentes estão morrendo, o que significa o fim dos rios. A este quadro soma-se o alerta de outra especialista, Marta Hirota, da Fundação SOS Mata Atlântica, que mostra como os 79% de matas devastados em SP, em áreas de mananciais, secou o Sistema Cantareira. A situação é gravíssima, não é "papo de ecochatos", como os alienados e os interesseiros costumam tachar. Perto do que está ocorrendo com o meio ambiente todas as outras pautas políticas empalidecem. O meio ambiente é maior do que os debates sobre planos de saúde, construção de estradas, extração de minério, segurança, casamento igualitário, religião. Não há vida a ser discutida se faltar água, muito mais importante que o petróleo.
Um futuro sombrio espera o Brasil e, neste final de eleições, votar em candidatos que tenham algum compromisso ambiental é uma necessidade. Acabam-se as facções, as ideologias, os partidos quando o que está em jogo é a vida.
Como em Blade Runner, em algumas regiões brasileiras animais estão extintos ou em extinção. Ainda não criaram "replicantes" para substituí-los, tal como no filme de Scott, mas se quiséssemos ter no Cerrado algumas espécies de volta teríamos que recorrer aos laboratórios. É o caso de alguns tipos de abelha que serviam à polinização de espécies vegetais e foram extintas pelo uso massivo de agrotóxicos. A falta dágua que no momento assombra São Paulo repete-se em áreas como a da nascente do rio São Francisco que secou. Estamos atravessando as fronteiras da ficção quando um dos países com maior oferta de água potável passa a viver uma crise que parece sem solução. O professor da PUC de Goiás já criou na universidade um melancólico Memorial do Cerrado, com amostras daquilo que o bioma foi e não é mais. Pior para todos nós. Só os con-domínios financeiros e políticos não se tocaram ainda, mas chegarão lá quando abrirem as torneiras e ouvirem o sopro da seca, em vez do barulho da água, como trilha sonora.
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