Célia Musilli - Quem acredita em coelhinhos?
Chega a Páscoa e vemos coelhos por toda parte, como um símbolo da data por sua representação de fertilidade e vida. Aqui em casa, bem tentei dar aos meus filhos a ilusão de que existe um coelho que carrega chocolates. Mas que nada! Talvez por eu valorizar a fantasia, o desafio deles sempre consistiu em desmontá-la. Crianças adoram ser sabidas e desmistificar o mundo do faz de conta que os adultos inventam para elas.
Há alguns anos, acordei mais cedo num domingo de Páscoa, peguei um giz e desenhei caprichosamente um caminho de patas de coelho da casa até o jardim, para que as crianças seguissem o rastro e descobrissem os ovos de chocolate. Eles, como sempre, acordaram com a preguiça típica dos domingos, e quando foram convidados a seguir ''o caminho do coelho'', declararam:
- Qual é mãe? A gente sabe que foi você quem desenhou estas patinhas. E cumpriram o roteiro, mais interessados no tesouro do que no mapa.
Este episódio mostrou que, aqui em casa, quem gosta mesmo de fantasiar é a mãe! Os filhos adoram o desafio de desmontar as lendas, embora no fundo compreendam a nossa tentativa de dar a eles um bocado de poesia, além dos chocolates. Assim, repeti durante alguns anos o ritual de seguir o rastro do coelho. Consciente de quem acredita nele...sou eu.
Já um amigo me conta a história de Rafael, um garotinho que, ali pelos cinco anos, desconfiou que o tal coelho da Páscoa não existia. Foi conferir com a mãe a doce mentira e quando ela, meio sem graça, confessou que era tudo invencionice, Rafael ficou revoltado:
- Mãe, como é que você pode me dizer que o coelho não existe? Fiquei muito triste, e caiu num choro sentido.
Para consolá-lo, ela explicou que se tratava de uma fantasia que os adultos criam para alegrar as crianças. E ele retrucou, sabido demais para sua idade:
''Pois se o coelho não existe, você devia reinventá-lo''.
Acho que o desejo do Rafael é o de todos nós, quando tentamos reinventar a realidade. O mundo não teria tanta graça sem a ilusão de que existem coelhos da Páscoa, Papai Noel, super heróis e vilões. Com eles aprendemos de forma lúdica alguns valores como a esperança, o amor, a solidariedade e suas recompensas. E ficamos desiludidos quando estes seres mágicos deixam de existir, mas, de algum modo, carregamos pela vida afora a necessidade de reforçar as crenças a partir das ações dos nossos heróis. Então, não tem muita importância se o coelho da Páscoa existe ou não. Importa é abrir para nós e para as crianças a possibilidade de reinventar a realidade a partir da imaginação sem limites, própria da natureza humana, que nos possibilita experiências intangíveis, cheias de beleza e poesia.
Esta realidade inventada também desemboca em territórios como a arte e a literatura. Porque o que é a ficção senão a criação de espaços e histórias onde as coisas têm os desfechos que desejamos para mostrar o que vale e o que não vale a pena como crença ou valor?
Escritores, artistas e músicos, de certa forma, passam a vida recriando a realidade e, com isto, dão à vida um contorno mágico para que se descubram mapas e tesouros.
Na realidade, como na ficção, muitas vezes fazemos de conta que tudo é possível e assim dobramos nossas esperanças. Assim, as coisas que parecem absurdas cabem em nossos sonhos e tornam-se pequenas verdades a nos conduzir de forma mais leve ou, pelo menos, nos emprestam um colorido extra.
Uma das frases mais criativas que já li sobre a imaginação humana, é do italiano Pitigrilli, escritor e cronista dos anos 50 que deixou textos sarcásticos e divertidos. Ele disse: ''O poeta é um engarrafador de nuvens.'' Acho esta tarefa tão importante quanto desenhar rastros de coelhinhos para crianças que, às vezes, crescem antes da gente.
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