CELIA MUSILLI - Que prevaleça a esperança
Frequentemente temos coisas a pedir a Deus. Algum desejo oculto, um plano que ficou no tempo, um sonho que queremos ver na cintilância da realidade. Ao longo da vida, mais pedimos que agradecemos. Por isso, não custa abrir um parêntese, fazer uma pausa, deixar-se levar pela gratidão e dizer obrigado pelo fato de acordarmos com a perspectiva de ter trabalho, descanso, alegria, amigos, filhos e bichos de estimação, que insistem na tranquilidade de apenas viver.
Estar vivo já é em si um milagre. Saber que temos um corpo, esta máquina tão delicada, capaz de nos levar a longas distâncias, a movimentos quase impossíveis, à percepção pelo olhar, o tato e a audição, já é motivo de alegria. Assim como saber que temos a mente, geradora de ideias, e a delicada emoção que aflora, pedindo frestas, falas, versos, comunicados, ainda que seja num bilhetinho para dizer: ''Eu te amo.''
Todos podemos dizer ''obrigado'', ''olha a lua'', ''é primavera'' ou ''viver vale a pena''. No entanto, na maior parte do tempo, reclamamos, sonhando com o impossível, perdendo tempo com julgamentos e, principalmente, com críticas aos outros. No nosso egoísmo em comum, quase sempre estamos certos, o errado é o outro, a culpa é de quem não nos compreende, os dias nunca são completos, falta alguma coisa em tudo. Enfim, como Hardy só temos a declarar: ''Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar! Não vai dar certo!'' Mesmo sabendo que a fala contamina o futuro.
Se queremos viver como crianças insatisfeitas, nada nos impede. Mas é certo que a felicidade está nas coisas simples, nas observações mais corriqueiras, no prazer de tomar sorvete, rir com os amigos, olhar a chuva, ler poesia, ver filmes, comer pipoca, usar o vestido novo, andar para chegar a lugar nenhum. Sei que às vezes as coisas não se encaixam, o poema não convence, só temos um sapato em vez de um carro, devemos mais do que ganhamos, não há perspectiva de amores, nem de férias, nem de emprego, mas não importa. Há tempo para todos os pequenos e os grandes sonhos, o mundo não vai acabar amanhã.
Por isso, prefiro usar meu tempo celebrando as coisas realizadas, a pausa para o devaneio, o fluxo da escrita, o livro que lancei esta semana e que me fez sonhar com o próximo. Porque a escrita é um rio, eternamente mobilizado numa correnteza de coisas novas como as estrelas, que nascem em big bangs que nem sonhamos.
Pelo alto astral de uma semana cheia de desafios, não quero reclamar, quero celebrar, e convido as pessoas desacostumadas a ver o lado bom da vida a abrir frestas de esperança, porque é muito mais fácil olhar as coisas sob alguma luz. Ainda que seja a luz de uma lanterna no escuro ou o sol ofuscado do primeiro dia de primavera. Tudo vale a pena, quando abrimos os olhos para uma nova paisagem, ainda que seja apenas a paisagem antiga, flagrada numa janela otimista. E que neste domingo prevaleça a esperança.
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