CÉLIA MUSILLI - que Hilda sonhava
Algumas pessoas quando morrem deixam memórias muito vivas. Geralmente são aquelas que também não economizaram vida em vida, dando valor a minúcias, detalhes, a tudo que possa compor um repertório que nos dá a impressão de que ainda estão entre nós, mesmo quando já partiram. Foi isso que senti ao pesquisar esta semana parte do acervo de Hilda Hilst no CEDAE - Centro de Documentação Alexandre Eulálio - da Unicamp.
Fui para revirar as memórias de Hilda. Podia ter começado pelos livros, cartas ou fotografias. Mas comecei pelas suas Anotações de Sonhos, uma pasta pequena, sem muitos escritos, que me aproximou da intimidade de uma das maiores escritoras do Brasil. Nada mais íntimo do que penetrar, de algum modo, no inconsciente das pessoas. A primeira impressão é que ela começou a anotar seus sonhos na década de 70, embora eu ainda não tenha visto tudo de Hilda enquanto dormia. Além da pasta que selecionei, há mais anotações de sonhos numa agenda, que deixei para depois.
É muito delicado visitar os sonhos de alguém. É preciso entrar devagar num lugar em que até o absurdo faz sentido. Os sonhos de Hilda valem tanto quando as jóias da Cleópatra ou os hieróglifos de uma antiga civilização. Sua letra precisa e delicada, me confundiu às vezes, quando não consegui, por exemplo, ler a palavra ''meiguice''. A meiguice de Hilda era um hieróglifo e pedi a ajuda de um arquivista competente, Cristiano Diniz, que organizou o acervo e decifrou o que não consegui ler.
Com luvas descartáveis, virei páginas como se tocasse a escritora que admiro profundamente pela versatilidade de ter criado poesia, romances, contos e peças de teatro. Uma escritora completa que, além de tudo, desenhava. Entre seus relatos de sonhos, há desenhos de vacas, círculos, casas. Seus sonhos são sobre temas densos, a morte, o amor, o erotismo. E também tem a leveza das coisas simples como sapatos, roupas, bebidas e dentes, muitos dentes.
Há drama em relatos que tratam da morte: ''Sonho com Adel sendo morto por um tal de Dante''. Há erotismo em sonhos que aconteceram ali, numa das maiores avenidas de São Paulo: ''Sonho com J. Estou na esquina da Paulista, ele me diz que tive muitos homens...'' Há sonhos que a levam à cidade onde nasceu: ''(Vi) um empório-casa, herança deixada para mim em Jaú''. Há sonhos cheios de bichos como o do ''cavalo preto e em cima do cavalo o passarinho Maria Preta'', além de ''vacas sendo atingidas por flechas na barriga''. Salvador Dalí teria muitos temas à disposição se Hilda lhe tivesse contado seus sonhos.
Uma das partes mais bonitas é o rascunho de um poema: ''Digo palavras velhas da minha língua/ patinadas de sonhos/ de meiguice enlutada. Digo palavras velhas/porque velho é o sonho/ do homem permanecer aqui/ na casa/ na cidade/ na vila/ e pelos vitrais/ saber que é criatura/ porque sabe pouco de si mesmo''.
Não sei se Hilda sonhou com este poema, mas até nos sonhos suas frases têm um lirismo surpreendente, como a de um amigo que diz: ''Digamos Hilda, assim, que nesse amor com você conservo o feitio do coração''.
Tudo isso está em folhas de cadernos, de blocos de anotações e até no papel de um velho maço de cigarros, dando a impressão de que Hilda foi fumar entre as estrelas depois de nos contar seus sonhos.
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