CÉLIA MUSILLI - Que Fênix renasça das cinzas
Camille Paglia, a norte-americana que frequenta todas as listas da inteligência contemporânea, declarou à Veja que anda fissurada em Daniela Mercury. Caiu de amores depois que viu a baiana em DVD e destronou Madonna, a quem já considerou o ícone máximo do pop.
Camille deve saber o que está falando. É uma expert em feminismo, arte e cultura. Ainda assim, acho estranho que se sinta fascinada por La Mercury. Não deve saber que no Brasil há dezenas de Danielas e Ivetes, reproduções em série do reino do axé, cujo pior exemplar atende pelo nome de Claudia Leitte. São estas cantoras que comandam a festa de Momo, aquela mesma que agora começa e termina com a multidão gritando ôôô, uma saudação tribal pelo qual nutro alguma simpatia no primeiro dia de folia. Depois não aguento nem mais ouvir, com seu sentido esvaziado pela mímica das mãozinhas no ar que transforma os blocos em legiões abobalhadas e repetitivas.
Fico pensando por que as pessoas acham tão divertido gritar ôôô e arrotar cerveja, enquanto pulam emboladas, sujeitas a cotoveladas e empurrões. Será que meu sentido de coletivo é que anda esvaziado? Ou o carnaval é que caiu na vala da caretice em comum?
Para mim, a coreografia carnavalesca, que substituiu o samba no pé, engoliu a criatividade das mulatas que sabem rebolar ao toque do surdo e do tamborim. Parece que ninguém mais quer sambar, mas ficar ali naquele lastimável exercício aeróbico. Com isso perdeu o Brasil. Sobrou uma multidão gritando ôôô e movendo-se como uma onda monótona que troca beijaços na falta de emoção maior.
Nenhuma conotação moralista me leva a tal afirmação. Acho beijos uma maravilha. Mas não quando servem apenas pra aparecer na telinha, inserindo pares improvisados na onda carnavalesca que, enquanto ato de transgressão, não choca nem mais a minha tia freira.
O excesso midiático deixou o pecado insosso, sem graça. Imagino, nos anos 50, 60, o que não significava trocar carícias nos salões mal iluminados. Ver uma vedete num desfile de rua, coxas torneadas e seios em formato diversificado, originalíssimo, nos sutiãs meia-taça que deixavam espaço para a imaginação, num tempo em que imaginação havia.
Agora, um exército de mulheres balança os peitos siliconados e nem tio João para na sala pra ver. Diz que cansou da abundância em série, das musas de plástico e que sente saudades de Rita Cadilac e sua indomável dança da pantera.
No reino da cultura popular, o Carnaval também perdeu em forma e conteúdo. Deste reino fake, Camille Paglia tirou a afirmação esquisitíssima de considerar Daniela Mercury um raio (pois que caia no seu terreiro). E a elegeu a Madonna brasileira, exaltando uma qualidade que, segundo ela, Madonna não tem: a de conhecer profundamente a cultura, o folclore, os grupos étnicos que formam o caldo criativo de um País. Tudo bem. Daniela pode até estar com a bola cheia, mas não lhe perdoo o fato de ser uma das pioneiras do Brasil do ôôô e dos exércitos coreográficos que movem os braços para cima e para baixo, numa monotonia baiana que me deixa com saudades da quarta-feira de cinzas, na esperança de que alguma Fênix, enfim, renasça da mesmice.
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