CÉLIA MUSILLI - Quase uma carta
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domingo, 02 de fevereiro de 2014
"Siga o gozo." Eram essas as palavras do Dr. Rubens Molina com quem fiz análise durante um ano, até ele morrer repentinamente em 2013. O gozo é o que posso fazer por mim mesma, minha capacidade de tornar a vida melhor. Ele achava o máximo eu gostar de escrever. Dizia que eu tinha "um instrumento", acho que pensando no quanto ele mesmo gostava de tocar piano. Era um analista direto, objetivo, não esticava as sessões porque sabia atingir o alvo. Acho que por isso também não prolongaria a análise por muitos anos, o que é sempre uma vantagem para uma (im)paciente instável como eu, que diante de um processo longo, sempre escapa antes. Talvez nunca mais encontre um analista como ele, 50 anos de profissão faziam a diferença.
A convivência com Dr. Molina foi importante. Ele foi o primeiro analista no Brasil a fazer sessões online a partir dos anos 90, uma ousadia que outros adotaram depois. Mas foi ele quem lançou a ideia inovadora, atendendo pessoas do Brasil e do exterior. Dr. Molina, em décadas passadas, foi psicanalista de gente famosa como Caetano Veloso e Fernanda Torres, mas atendia pessoas diferentes, de qualquer nível, crença ou classe social. Tinha uma atitude que me fez respeitá-lo mais ainda, quando alguém alegava que não tinha muito dinheiro para investir em análise, respondia: "Quanto você pode pagar?" Considero isso uma prova de ética acima do mercantilismo, porque supunha que ele tinha clientes que podiam e pagavam bem, cobrindo o déficit de quem não podia tanto. Atendia a todos com a mesma elegância e profissionalismo.
Acho que me aceitou como paciente porque gostávamos de conversar e tínhamos muitos assuntos. Ele sabia da minha pesquisa sobre a obra de Maura Lopes Cançado, escritora considerada esquizofrênica, que devo concluir este mês como dissertação de mestrado. O seu interesse na pesquisa tinha um viés pessoal e profissional, me contou que chegou a conhecer no Rio o psiquiatra que tratou de Maura nos anos 50, quando ele mesmo era um jovem residente de um hospital psiquiátrico. Maura faleceu em 1993, Dr. Molina no ano passado e talvez se encontrem no outro mundo, onde as análises continuam porque autoconhecimento é um processo infinito. Análise é também decifrar a linguagem do inconsciente, dos sonhos, dos lapsos e, penso eu, que talvez da morte, a partir da qual não sei se desaparece isso a que chamamos "consciência".
Dr. Molina não acreditava nem na morte, para ele era tudo um fenômeno de linguagem, aquilo da nomeação das coisas determinarem sua existência. A vida passa a existir como ideia quando a chamamos vida, a flor quando a chamamos flor e com a morte, segundo a crença dele, isso não seria diferente. As ilações sobre seus encontros ou desencontros em outro mundo devem-se exclusivamente à minha imaginação. A curiosidade é a chave adequada aos mistérios, fico por aqui com a parte do filme revelada e devo dizer que o considero bom.
Entre as lembranças que guardo do meu analista, há um capítulo especial sobre o amor. Uma vez ele me disse que minha forma de amar era muito primitiva, porque não escondo nada, vou de peito aberto, o que também significa pular no abismo. Queria que eu sofisticasse o jogo ou, simplesmente, aprendesse a jogar porque em matéria de amor como em tudo na vida - o que promove o desejo é a falta. Por isso, me estimulava a escrever, mas dizia que nem sempre precisava enviar a carta, queria me poupar das gafes dramáticas do amor, sabia que eu era um tango, não um minueto. Queria me ensinar a alegria de viver sem depender dos outros, a me bastar pelas delicadezas que pudesse conceder a mim mesma, porque este é o gozo, este é o prazer que depende só de nós. Por isso escrevo cartas, mas ainda não sossego se não as ponho no correio. Então, leia aí, doutor, a sessão era sempre às quintas, mas perdi a hora e, esta semana, me atenda neste domingo, por favor.
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