A gente muda de cidade, de bairro e também de vida. Talvez não mude em coisas essenciais porque somos construções que demandam anos de preparo e este estado não se dissolve num passe de mágica. Mas as mudanças sempre implicam numa mexida. Um dia deixamos o bairro onde vivemos por anos, a cidade com a qual nos confundíamos e, de repente, estamos inseridos em outra paisagem. Esta semana, desembarquei no novo. Mudei-me para outra rua, outra cidade, Campinas não é pequenininha, mas tive a sorte de encontrar um bairro arborizado e morar de frente para um vale, que dá para um rio, confirmando-se a tendência de estar sempre entre a natureza e a urbanidade, no limiar de dois mundos.
Uma das melhores coisas é sair para fazer um reconhecimento de casas nunca vistas, cachorros diferentes, gatos que se espreguiçam eternamente nos muros e se deparar com a vizinhança. De vassoura na mão, cuidadosamente recolhendo as folhas da calçada, Cleide é a primeira vizinha a me saudar, vive há anos na Cidade Universitária, conhece cada rua e todos os seus prazeres e perigos. Recomenda que eu ande pela calçada, que não chegue em casa muito tarde, que não pare para dar informações, que não use jóias nem carregue objetos de valor, porque a cidade está violenta.
Ao cumprimentar a Cleide, fazendo as devidas apresentações, noto que ela tem olhos esverdeados e profundos, destacados pelo contorno de um turbante escuro. Ela me lembra uma daquelas figuras dos anos 70, saídas do movimento hippie e que mantém uma aura de magia. Fácil imaginá-la entre cartas de tarô, cristais e objetos que reverberavam no tempo como indícios de uma nova era que não veio.
Na verdade, o planeta não mudou para melhor, as cidades estão perigosas, o destino se confunde com a necessidade de consumo - as pessoas dizem: ''Tenho que ter isso e aquilo para ser feliz'', e o bordão até parece um karma da nova civilização que não vive sem cartões de crédito.
É interessante encontrar uma figura que de hippie guarda a aparência e alguns conceitos importantes, mas administra com competência moradias estudantis que têm pequenos luxos como energia solar, um jardim bem cuidado, árvores que dão uma sombra generosa, numa demonstração de que alguns valores do que seria o 'mundo ideal' vingaram de uma outra forma. As pessoas buscam qualidade de vida, embora não sonhem mais com a convivência pacífica em comunidades.
Nas cidades misturam-se estilos de vida e num bairro universitário o novo convive com o antigo, hábitos se confundem e, entre motoristas, pedestres e ciclistas, a gente percebe que não vai salvar o planeta só porque toma água de filtros de barro em plena era do plástico.
Deve haver por aqui mais vizinhos assim como a Cleide, que me levou a uma reflexão sobre o que queríamos ser e no que nos transformamos. O que me revolve a memória não é o sentido crítico nem de julgamento da distância que separa o sonho da realidade. Uma ex-hippie que administra quitinetes de luxo carrega com ela, além da aura mística, uma simpatia e um acolhimento que me fizeram bem na nova cidade como se recebesse um sopro de vida. No interior da sua casa ainda se ouve a trilha sonora de Hair, 'sinos de vento' tocam nas varandas, cristais confundem-se com revistas de decoração, passado e presente se completam mostrando que vale mesmo é a generosidade de quem aconselha: ''Não chegue em casa muito tarde.'' Porque as cidades estão perigosas, 'paz e amor' é um slogan congelado no tempo, mas ainda é possível tomar chá e agradecer à Cleide por me trazer tantas memórias e me receber neste tempo novo.
[email protected]
www.sensivelldesafio.zip.net

mockup