''O amor estava destinado a ser domingo/ dia de ficar na cama/ na pele de quem se ama...'' Acordei com estes versos na cabeça e fui pesquisar poemas sobre o dia em que acordamos confortáveis, sem o despertador, iludidos de que o descanso será longo e que o resto da semana nem existe.
Encontrei descanso num poema de Álvaro de Campos - o amigo imaginário de Fernando Pessoa - que me disse: ''Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo.../ Assim passa a vida/ Sutil para quem sente.''
Ah! Se pudéssemos inverter a lógica do tempo. Descansar seis dias, trabalhar um só, ainda que o Criador nos olhasse com censura, com desdém pelas criaturas vagabundas, coisa que Ele nem faria, porque sabe da nossa necessidade de ter mais tempo para o devaneio e acho que foi num devaneio que Ele criou o mundo.
Ele também sabe que sua idéia de deixar o domingo para o descanso foi mal interpretada por muitos de nós, que trabalhamos sete dias ou nos estressamos tanto em seis que precisaríamos de dez anos de férias à beira-mar.
Amanhã será segunda-feira e de novo transformaremos nosso tempo num cavalo de batalha, sairemos a galope, sem olhar a beleza de cada dia, sem levar a sério o fato de que a vida é breve e que devíamos nos dedicar às coisas delicadas, como ler as nuvens ou se demorar naquele jardim que cruzamos sem tempo de indagar se aquilo é uma rosa.
Amanhã será segunda-feira e nos entregaremos à rotina à espera de outro domingo. Mas hoje, só hoje, ainda há tempo de sair por aí num cavalo dócil, sem arreios, destes que pastam sem contar as horas, sentindo o vento, sondando a chuva com um olhar tranquilo, entregue à tarefa de viver.
Devemos dar graças aos domingos, esvaziando as expectativas de lutas que nos oprimem, do horário que nos atordoa, da pressa que nos consome, porque Deus nos deu um dia de descanso e hoje é este dia. Por isso e sem pressa, nossa prece deveria durar 24 horas neste santo domingo, em agradecimento pelo ócio concedido que nos faz voltar à infância uma vez por semana, jogando bola, desejando sorvete e cinema, até que os outros dias nos engulam com a voracidade do tempo que aprendemos a contar.
Mas hoje, e só hoje, estamos livres da matemática das rotinas, então descansem, porque é domingo. A pausa que nos deu o Criador para a imensa graça de viver em liberdade como as outras criaturas que leem as nuvens e sabem das rosas. Amém!
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