Revi os murais de concreto de Poty no Memorial da América Latina. Ao me deparar com eles lembrei-me de tantas coisas. Poty (1924-1998) era paranaense, cresci admirando algumas de suas obras. Entre elas, o mural em frente ao Teatro Guaíra, em Curitiba, que me fez ir e voltar pela mesma rua muitas vezes. Seu talento sempre me provocou grande encantamento. O mural do Guaíra é uma lembrança remota da minha infância, quando ia a Curitiba, vez ou outra, passear com meus pais.
Mais tarde, em Londrina, passei muito tempo admirando um painel de Poty, feito de azulejos, no saguão do Hotel Crystal. Antes das entrevistas coletivas, normalmente feitas ali para algum evento, me distraía vendo as cenas daquela obra belíssima, chamada "Lendas Brasileiras" (1985).
A agência central da Caixa Econômica Federal, em Londrina, também tem um painel do artista: "Café e Etnias" (1977), quem nunca viu ou prestou atenção está perdendo muita coisa. Trata-se de uma obra fabulosa que mostra o ciclo do café, do plantio à colheita, conta com uma mistura de símbolos, índios, caboclos, elementos da natureza. Só sinto que o painel não fique na linha dos olhos, para vê-lo é preciso olhar para cima. É que quando instalado em local mais baixo estava sujeito a interferências nada artísticas, as pessoas o rabiscavam ou mesmo apagavam cigarros sobre ele. Inconcebível. Assim a obra foi para um plano mais alto, quase no teto, onde fica protegida.
Poty tem obras em edifícios públicos no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. Seus painéis também estão em outros locais pelo mundo afora, como a Casa do Brasil, em Paris. Ele expôs em Bruxelas, Londres e Washington. Seus desenhos e gravuras também são parte importante de sua obra, ilustrou edições de "Grandes Sertões: Veredas", de Guimarães Rosa, além de livros de Jorge Amado, entre outros autores. Recentemente Artur Brizola, um arquiteto recém-formado, fez um trabalho de conclusão de curso propondo a construção de um museu para Poty em Curitiba. Nada mais justo.
Poty foi o primeiro grande artista com quem tive contato. Como exímio gravurista colaborou com a revista cultural "Joaquim", criada por Dalton Trevisan, de quem também ilustrou livros. No início dos anos 90, Wilson Bueno (1949-2010), de quem guardo as melhores lembranças - ele foi cronista da Folha de Londrina quando eu era editora da Folha 2 – convidou-me para escrever uma resenha sobre o livro "Poty, Trilhas e Traços", de Valêncio Xavier. Foi uma honra escrever o texto para o Jornal Nicolau, ainda hoje considerado uma das melhores publicações literárias do Paraná e do Brasil que teve sua publicação suspensa, de modo arbitrário, em 1994.
Esta semana, no Memorial da América Latina, deparei-me de novo com obras de Poty, monumentais, delas fotografei detalhes, tratam-se de murais de concreto, de uns 10 metros de altura, que formam um conjunto com murais de outro grande artista: Carybé.
Poty registrou em concreto, azulejos e gravuras ciclos importantes da cultura do Paraná, o cultivo do café e da erva-mate, os trabalhadores, figuras populares, lendas e mitos. Sem ele, seríamos mais pobres culturalmente. Acho que de tempos em tempos, com intervalos grandes, nascem artistas fundamentais, capazes de flagrar aspectos que passariam batidos sem a visão de seu terceiro olho e suas antenas sintonizadas à cultura essencial, aquela que permanece como um rastro iluminado do humano, demasiadamente humano.

[email protected]

mockup