CÉLIA MUSILLI - Por que escrevemos?
De vez em quando me deparo com temas recorrentes. Frutos das sincronicidades, eles se repetem nas conversas, nas leituras, nas mensagens enviadas por algum amigo. Tudo parece convergir para que eu reflita sobre eles e não resta nada a fazer a não ser ceder aos caprichos de um estranho deus que vem me soprar essas idéias.
Ontem de manhã eu conversava com um jovem escritor paulistano, autor de porradas criativas, abrindo janelas para realidades sofridas e sujas, retratos crus do cotidiano feitos por um tipo urbano, ''achado e perdido'' na Grande São Paulo, e que sabe mapear becos e desvios, não só da cidade mas das pessoas, com precisão cirúrgica e sentimentos.
O autor rebelde, atrevido e realista é um ''outsider'' que diz que gosta do que escrevo. Da poética feminina, dos sentidos suspensos, das minhas emoções sem saída. Assim, nos entendemos dentro de um paradoxo de formas e conteúdos, onde o que vale é a intenção criativa.
Ontem, num papo rápido, surgiu a tentativa de compreender por que escrevemos. Pessoas tão diferentes e tão iguais, quando o assunto é o rito xamânico das letras que dançamos a cada dia, dissemos, quase simultaneamente - um ainda desconhecendo a resposta do outro -, que escrevemos para sair do sufoco, registrar nossa percepção do mundo e que este jogo só vale se houver sinceridade, porque a finalidade da escrita não é fazer pose.
Saber por que escrevemos é um tema que me rondava há tempos. Lembro-me de um ensaio de Enrique Vila-Matas sobre a escritora francesa Marguerite Duras. Ele jogava luz sobre a obra de uma autora que viveu quase exclusivamente na companhia dos seus textos, criando um mundo dentro do mundo. Nesta proposta eu antevia uma parte da resposta para a pergunta perturbadora: Por que escrevemos? E creio mesmo que mais do que ''criar um mundo dentro do mundo'', escrever é uma forma de transcender a realidade, tentando decifrar a ilegibilidade da própria existência.
Duras gostava de ficar num espaço que batizou de ''a casa da escrita'', onde criou muitos de seus livros e roteiros cinematográficos. E se alguém ainda está se perguntando quem é esta autora, é só lembrar que é dela o romance ''O Amante'', levado ao cinema sob a direção de Jean-Jacques Annaud. Os repetitivos canais de TV às vezes o exibem em noites de bom gosto.
Pois esta roteirista e escritora talentosa criava, entre outras coisas, expressões inusitadas. É dela a frase ''a mosca escreve'', uma alusão ao extremo silêncio e solidão do universo de quem se debruça sobre as palavras e encontra uma nova maneira de enxergar a realidade.
''A mosca escreve''. Deste isolamento nascem tantas falas, tantos personagens, tantos enredos que é possível recriar a vida escrevendo histórias. E recriar a vida significa transcendê-la, rompendo os becos das circunstâncias, fazendo desvios para escoar emoções, experimentando uma nova leitura de nós mesmos inseridos no grande mistério da existência.
Clarice Lispector, outra autora que admiro, foi pródiga em recriar situações orgânicas, psicológicas, cosmogônicas incorporando através desses códigos uma possível compreensão do mundo infinito que se abre dentro de cada ser. Seus personagens transformam-se em estrela ou são capazes de ver o luxo nas patas de uma aranha peluda. Inusitado mundo, inusitada sensibilidade, inusitada dor.
Então, disse ao meu amigo que escrever é um mergulho de onde às vezes saímos quase afogados. Mas os náufragos desta experiência conseguem também alcançar a margem e isto é tão somente a salvação.
Trágica e corajosa, Marguerite Duras uma vez declarou : ''Eu escrevo para não me suicidar''. Não se assustem. Eros (o amor, o impulso criador) e Tanatos (a morte) coexistem e guerreiam permanentemente dentro de nós. Acho que Duras escrevia para equilibrar essas forças.
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