Não sei o que será de nós
Mas resta um blues
Neste quarto a sós

Sim, eu me emocionei quando vi este meu poema e outros de Edra de Moraes, Mário Bortolotto, Marcos Losnak e Carlos Francovig colocados em outdoors nas ruas de Londrina, para o lançamento do Londrix, festival literário que vai de 22 a 26 de setembro. Por essas e outras é que esta cidade vive em mim, embora eu já não viva nela.
No poema falo de blues, porque nele há um derramamento de emoção que não cairia tão bem em nenhuma outra linguagem. Nisso, o blues se aproxima do amor, como um estado de inundação. O certo é que ao saber dos outdoors chorei muito, mas não era de tristeza. Era por uma emoção que nos torna momentaneamente felizes quando alguma coisa nos toca. E como toca. Talvez, nem mesmo quando vi meus poemas no primeiro livro senti a mesma coisa. Ainda que ver num livro as letrinhas saírem do ''indizível'' para o papel seja uma bruta alegria - por tanta delicadeza. Esta emoção não se perde, nem mesmo no terceiro livro, ''Todas as Mulheres em Mim'', que lanço em Londrina nos próximos dias.
Mas saber que os poemas estão soltos pela cidade é realizar um sonho: o de iluminar as ruas, criando um bom motivo pra gente encarar o dia. Ao contrário da publicidade que se vê nos outdoors, o poema não é um produto, não vende nada que se troque por dinheiro, nem pede votos. Um poema não tem segundas intenções, serve apenas para sensibilizar. Um poema existe em várias línguas: poem, gerdicht, vers, poème, dikt. Um poema nasce de paisagens interiores que às vezes até desconhecemos e só identificamos quando tomam formas, surpreendendo como um passarinho.
Um poema dispensa apresentações, todos o reconhecem ao primeiro olhar, como uma daquelas coisas que existem pelo que encerram de beleza e algum mistério. Porque a vida sem mistério nem teria tanta beleza, a vida sem Deus, vejam só, nem teria mistério. Por isso, poemas para mim são como um pequeno deus e os prefiro a muitas religiões. Me perdoem a sinceridade, aliás, apenas compreendam, se digo isso é porque o mundo está cheio de segundas intenções, na política, como na religião. Então, prefiro a poesia, que apenas existe e não pede nada além de um olhar.
Faço um convite: leiam a beleza no cotidiano. Com poemas nos outdoors é como se as ruas, enfim, fossem dos vivos. Sei que as pessoas sentem as palavras como a novidade que transforma nossos estados de espírito. Por isso chorei, como se a transformação também me pegasse e me dissesse que quem faz poesia, ainda que não tenha nenhum controle sobre os acontecimentos, tem nesta vida a função de espalhar beleza e alegria, mesmo que isso nos custe, muitas vezes, a angústia. Deixo a vocês mais um poema de outdoor, é de Marcos Losnak e tem tudo a ver com a cidade:
De bicicleta
Olhando o céu
Nenhuma rua é reta

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